quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A NÍVEL DE...

Capítulo 6  

A NÍVEL DE...         

Vanderley e Odilon 
são muito unidos 
e vão pro Maracanã 
todo domingo.

Amizade prosaica entre dois homens cariocas, num programa domingueiro:

Criticando o casamento.

     O que comentam, além do futebol, é a situação conjugal de cada um.

E o papo mostra
que o casamento anda uma bosta...

      Muitos domingos e conversas depois, a abertura para constatar que o casamento tem um lado péssimo. Um chora, então, no ouvido do outro.
Yolanda e Adelina
são muito unidas
e se fazem companhia
todo domingo
que os maridos vão pro jogo.

As esposas, por sua vez, estabelecem uma amizade reforçada e alicerçada aos domingos, quando os maridos as deixam.

Yolanda aposta
que assim a nível de proposta
o casamento anda uma bosta
e a Adelina não discorda.

Yolanda surge como aquela que denuncia a ruindade do casamento, usando uma linguagem "moderno-intelectualoide".
Aqui, os autores (Aldir Blanc, o letrista, e João  Bosco, o musicista) introduzem sua crítica mordaz à sociedade e à época em que vivemos.
Yolanda é o elemento ativo. Adelina é o elemento passivo.
Se o casamento dos quatro amigos vai mal, que tal experimentar a mudança? É sempre uma "proposta":

estruturou-se um troca-troca.

Entre pessoas tão unidas, por que não o troca-troca?

e os quatro: hum-hum... oquêi... tá /bom... /é...

Os quatro concordaram e são quatro as anuências:

Vanderley murmura “hum-hum”...
Odilon fala “Oquêi”.
Yolanda concorda “tá bom”
Adelina permite... “é”...

O suingue está realizado. Busca-se com isso a novidade, a experienciação de algo excitante que possa estimular relações pessoais estagnadas.
Em que vai dar essa realização de tendências libidinais parciais e incestuosas?  
                     
       Só que o Odilon, não ligando bem a
       /coisa,
       Agarrou o Vanderley e a Yolanda ó
       /na Adelina.

Ao ouvir muitas vezes essa música, interpretei o Odilon estranhando e agredindo o Vanderley, com ciúmes, por ele estar “comendo” sua mulher (Adelina?).
Ao escrever agora, deparo com outra interpretação, que me parece mais verdadeira, por ser mais inusitada.
Em pleno troca-troca heterossexual, Odilon não se conteve e agarrou o Vanderley, numa cabal demonstração de homossexualidade. Isso é confirmado pelo que se segue:

[...] e a Yolanda ó na Adelina.

Da heterossexualidade, como compromisso no casamento, tornada "uma bosta", os amigos evoluíram para o troca-troca heterossexual, e daí se surpreenderam no homossexualismo.
Há um período de satisfação e de alívio. Entraram num novo estado de aceitação e de criatividade:

Vanderley e Odilon
bem mais unidos
empataram capital
e estão montando
restaurante natural
cuja proposta é
cada um come o que gosta.

O homossexualismo aproxima as pessoas pela novidade, pela satisfação das tendências pulsionais correspondentes e pelo segredo em que fica imerso.
Os amigos vão trabalhar juntos e empresariam algo na moda. Mais uma ironia dos autores: "restaurante natural" e o portento da descoberta:

[...] cuja proposta é
cada um come o que gosta.

Afirmativa ambígua, dúbia, como deve ser a boa poesia e como, frequentemente, é a conduta das pessoas na vida.
Empataram o dinheiro, claro componente anal. Montaram uma empresa, lançando-se no futuro com esperança, naturalmente esperando lucros. Vão alimentar-se e alimentar os outros com a sua descoberta:
restaurante “natural” 
e passam a preconizar uma nova filosofia
cada um come o que gosta.

Essa é a pura liberação das pulsões parciais de cada um: comida vegetal, animal, onívora, natural; comida heterossexual, suingue, homossexual.
Rompida a repressão que comanda a obrigação do comportamento heterossexual prescrito no casamento, surge o “desbunde”, com uma sucessão de vivências específicas.

Yolanda e Adelina
bem mais unidas
acham viver um barato
e pra provar
tão fazendo artesanato
e pela amostra
Yolanda aposta na resposta
E Adelina não discorda
que pinta e borda com o que
/gosta.

As duas mulheres também passam pelo mesmo processo. Mais unidas, homossexualmente, acham a vida uma beleza e se lançam num empreendimento criativo e variado: o "artesanato". Estão esperançosas e investem na tarefa.
Mais uma vez, Yolanda é a parte ativa que aposta no acerto do que estão fazendo. Adelina consente. A grande descoberta delas é "pinta e borda com o que gosta". Descoberta reveladora, da mais ampla liberação.

É positiva essa proposta
de quatro: hum-hum... oquêi... tá bom... /é...

Novamente, a ambiguidade: "de quatro". Caíram de quatro, de bunda para cima, de exposição e de vulnerabilidade total ao desejo do outro. Está tudo muito bom, vai tudo muito bem.

Só que Odilon
 ensopapa o Vanderley com ciúme
 e Adelina dá na cara de Yoyô... 

Com a liberação das pulsões parciais, o caminho está aberto para o igual aparecimento dos sentimentos "baixo nível": surge o ciúme corrosivo do parceiro passivo em relação ao parceiro mais ativo:

Vanderley e Odilon
Yolanda e Adelina
cada um faz o que gosta
e o relacionamento... continua a mesma /bosta!

         Cada um faz o que gosta: relações comerciais, artesanais, conjugais, de amizade; sexualidade em nível heterossexual, homossexual e suingue.
          Beleza pura, pura liberação, cucas frescas, diria alguém.
          Aldir, porém, não é ingênuo. Não é à toa que já foi psiquiatra, e o Jaguar o apelida de "Aldir Blanc ducacete".
          Com toda essa evolução, os quatro conseguiram abrir o "casamento que anda(va) uma bosta!" – para um "relacionamento (que)... continua a mesma bosta!".
          O que essa crônica atual mostra é que a nua e crua liberação das tendências pulsionais parciais de dois casais leva à mesma bosta em que viviam nos limites mais repressivos das obrigações conjugais. Tinham tudo para acreditar que maior liberação acarretaria mais prazer e mais felicidade. Mas não. Após um curto interlúdio de "restaurante natural" e de "artesanato", o relacionamento se deteriora.
          A nível de... simplesmente evolui para o "baixo nível" apelativo e desgastante das relações humanas atravessadas por aquilo que todos nós temos de mais primitivo, cru e contundente. O sexo é o natural no homem.
           Falta na relação desses amigos, colhidos na armadilha do defloramento de suas tendências pulsionais, parciais, libidinais e agressivas, a capacidade de neutralização dessas pulsões, a sua assimilação e a capacidade de articulá-las num estágio superior de superação. Portanto, os autores desnudam com argúcia uma parte do percurso desses sujeitos: o daquele entre a constatação da insatisfação no casamento e a evolução para a eclosão bruta de tendências até então latentes.
           Nesse percurso, o que persiste é a sensação de perplexidade e de incompetência, ao lidar cada um consigo e com os outros.
           A coragem com que esses nossos poetas populares usam a língua falada para descrever essa situação do cotidiano do casamento é um tapa na cara de nossas boas maneiras convencionais.
           É a segunda vez que a palavra “bosta”, que rola na boca de todos nós, brasileiros, na fala coloquial, é empregada numa poesia gravada.
           João Bosco e Aldir Blanc são os mais hábeis cronistas da nossa vida urbana classe média. A discografia deles é prova disso.
          São sagazes e incisivos quando denunciam, alegremente, o lado ridículo, caricato, calhorda, mesquinho, idiotas de todos nós.
         O processo descrito magistralmente em A nível de... mostra um lado, pesado e patológico, que tem de ser vivido. O processo descrito retrata um dos maiores dramas que as pessoas adultas estão vivendo: como lidar com o daimônico de sua sexualidade?
         O processo de amortização das pulsões e de rearticulação do relacionamento seria outra canção. Não posso esperar que Aldir Blanc o descreva. Seria algo mais chato, embora muito importante. Essa parte do processo do relacionamento humano, às vezes, fica presenciada por nós, analistas, capazes de acompanhá-lo, mas não de transformar o processo em versos e música.

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