quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SEXUALIDADE E VIDA CONJUGAL — UM PASSEIO PELA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Capítulo 9  

SEXUALIDADE E VIDA CONJUGAL — UM PASSEIO PELA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Eu, baderneiro,
 me tornei cavaleiro, 
malandramente, 
pelos caminhos. 
Meu companheiro 
tá armado até os dentes:
 já não há moinhos 
Como os de antigamente.

O cavaleiro e os moinhos,
 João Bosco e Aldir Blanc


O menino vai-se encontrar e se relacionar com a menina nos Jardins de infância  (João Bosco e Aldir Blanc):
   
  E como um conto de fadas
  Tem sempre uma bruxa pra apavorar
  O dragão comendo gente
  E a Bela Adormecida sem acordar.
 Tudo que o mestre mandar
  E a cabra-cega roda sem enxergar.
  [...]
Olha o bobo na berlinda,
Olha o pau-no-gato, polícia e ladrão...
Tem carniça e palmatória
Bem no seu portão.
Você vive o faz-de-conta,
Diz que é de mentira, brinca até cair
Chicotinho tá queimando
– Mamãe posso ir?
Pique, pau, cuspe em distância,
Pés pisando em ovos, bruxa, dragão...
Um tal de pular fogueira
E a cabra-cega vai de roldão...
Pega, malhação de Judas,
E um passarinho morto no chão...
E você conheceu,
E você aprendeu...

Ele cresce, vira rapaz e passa a sonhar com Bijuterias  (João Bosco e Aldir Blanc):

Em setembro, se Vênus ajudar
Virá alguém. Eu sou de Virgem
E só de imaginar, me dá vertigem.
[...]
Eu sei: na idade em que estou
Aparecem os tiques, as manias,
Transparentes, feito bijuterias
Pelas vitrines da Sloper da alma.

Sofre então as Dores de amores (Luiz Melodia):

Eu fico com essa dor
ou essa dor tem que morrer
a dor que nos ensina
e a vontade de não ter
sofrer demais, que fruto
Mas precisamos aprender
Eu grito e me solto
eu preciso aprender
Curo esse rasgo ou ignoro
qualquer ser
sigo enganado ou enganando meu viver
pois quando estou amando
é parecido com o sofrer
eu morro de amores
eu preciso aprender.
Muitas vezes, não obstante, ele está com Tudo em cima (Tunai e Sérgio Natureza):
Meu coração tá com a corda toda
Tá numa boa, não falta nada
Tá tudo em cima. Tudo no clima. Tô a /mil,
Nem tô ligando pra quem me iludiu.

Isso porque um dia, em plena Zona Norte, ele depara com O mar no Maracanã (Moacyr Luz e Aldir Blanc):

Vim do botequim
Chamaram por mim na manhã
Era um búzio assim
Voz de querubim, me contou
Tudo que passou
Ventos e marés pra dar
No Maracanã, desde Itapoã, por mar
[...]
Quando o búzio viu a Dora daqui, /adorou!
E a Dora de farra, dourada da Barra, /disse: Ioiô!
E o eco no oco do búzio fez: “Ioiô, Iaiá!”
Iaiá daqui, Ioiô por lá
Iaiá daqui, das Doras que pintar.
E se apaixonou e quase endoidou de /gostar
Mas depois brigou e até tentou se matar
Dias desse fim, vim do botequim, manhã
Pardal disse assim: “Búzio foi pra /Itapoã!”
Doras iguais na Bahia e no Maracanã,
Doras iguais na Bahia e no Maracanã.

Torna-se então encantado, envolvido, muito bem compensado. Mesmo que mais tarde constate, decepcionado, que o amor pode ser um Falso brilhante (João Bosco e Aldir Blanc):

O amor é um falso brilhante
No dedo da debutante.
O amor é um disparate.
Na mala do mascate, macacos tocam /tambor.
O amor é um mascarado:
A patada da fera na cara do domador.
O amor sempre foi o causador
da queda da trapezista, pelo motociclista
do globo da morte.
O amor é de morte.
Faz a Odalisca atear fogo às vestes
e o Dominó beber aguarrás.
O amor é demais.
Me fez pintar os cabelos,
Me fez dobrar os joelhos,
Me fez tirar coelhos
Da cartola surrada da esperança.
O amor é uma criança.
E mesmo diante da hora fatal
O amor me dará forças
pro grito de carnaval,
Pro canto do cisne
Pra gargalhada final.

O que jamais pode ocorrer é ela ou ele recusar a proposta de envolvimento: o que está proibido é Não diga não (Tito Madi e Georges Henry):

Não diga não
Não me deixe sozinha
Sofro demais
Longe do seu carinho
Não diga não
me faz sofrer
Chegue-se a mim
Assim, assim
Se disser não
isso será meu fim
Coisas de amor
que me fazem sofrer
Sofro demais
Só pensando em você
Olhe pra mim
Diga que sim
Eu lhe darei todo carinho
Não diga não
Não me deixe sozinha.

             O homem que possui o privilégio de acasalar com uma mulher constata que ela espera dele coisas demais. Essencialmente, que ele saiba conduzir a relação. Adiante para pagar as despesas, cobrindo o básico e o pesado. A renda dela complementará algumas despesas charmosas e supérfluas. Ela espera, naturalmente, que ele descortine e provisione o porvir. Acredita que ele saberá ser um doce chefe de família, amoroso pai, detentor de uma autoridade forte, flexível e democrática. Presume que a enorme experiência sexual dele, decorrente da tão decantada liberdade masculina, será o guia seguro capaz de fazê-la desabrochar mulher. A um simples toque de vara. Ele será sempre um maravilhoso amante. Além disso, saberá como jamais magoá-la, dizendo a palavra certa, tomando a atitude adequada, prevendo, com sua sensibilidade de macho carinhoso, os anseios, os caprichos e as frescuras dela. Mais que tudo, tem como certo, pressurosa, que o interesse amoroso dele por ela se manterá aceso.
            Em contrapartida, ela lhe oferecerá muita coisa: beleza, viço, seu frescor, decantados pela legião de pretendentes. Suas rosadas túrgidas carnes macias, com os segredos todos insinuados pelas partes desvestidas. Sua interioridade, misterioso sacrário, aonde ele reiteradamente irá recorrer. Oferecerá olhos, braços, receptividade de fêmea, forjada na inteireza das expectativas. E o chamará de homem! Melhor ainda – meu homem!
           Cuidará, com previsível vacilação, do lar, base de operações a partir do qual o casal enfrentará o mundo e dele se resguardará. A mulher aceita o sacrifício de cuidar da desgastante rotina da casa e da prole, enquanto ele ficará com a parte mais fácil: sair e ir ganhar o dinheiro — supremo viabilizador da convivência conjugal.
           Segundo a sua concepção, o mundo dele deve ser tão “interessante!”...
           Como ele a escolheu? Um dia, simplesmente, ele  cantou:

Jandira da Gandaia
 Tu era da minha laia.

e a descobriu e a marcou com seu selo (Jandira da gandaia, João Bosco e Aldir Blanc). 
Ela, no ato, replicou: Eu tô que tô, (Kleiton e Kledir): 

Vem cá de qualquer maneira
Balança minha roseira
Me bate de brincadeira
Me chame de traiçoeira
Me tranca na geladeira
apaga minha fogueira
Promete qualquer besteira
Que eu fico toda faceira.

Então, rapidamente, ele compôs Samba em Berlim com saliva de cobra (João Bosco e Aldir Blanc): 
Gente, a minha história foi assim: 

Sou verde e rosa
E fui bebemorar num botequim
A gloriosa
E lá no bar foi-se encostando em mim,
Tão sestrosa
Rolinha e pomba de arrupiar,
Cascavel em pé de manacá.
Minha timidez sumiu de mim,
Cantarolei: Õ Rosa!
Aí eu virei a dose e era veneno
Que a morena
Salivou no meu copo sem pena
Me abalou, tentei sambar
— Cadê firmeza em cena?
Me deu um sono e um suor
E eu, machão, fiz um berreiro
E hoje, ex-viril-fuzileiro
Larguei a farda
E sou cambono em seu terreiro.

A relação transcorre fluida e plena. Levemente estonteado, ele canta e constata, em Ai, Aydée (João Bosco e Aldir Blanc): 

Eu não sei explicar de onde vem a /simpatia
Que todos sentem por mim.
Sou mais um latino-americano
e Roberto é um ídolo pra mim.
Um guarda já me deu um safanão.
Eu mesmo já me dei um beliscão
e acordei suado e concordado:
Aydée, Aydei, Aydemos
e estamos dando...

As possibilidades convivenciais do enlace conjugal são tantas... Examinemos algumas. Vamos utilizar, preferentemente, a acuidade e a picardia de uma dupla que revela a fundo a realidade das relações amorosas.
Vamos ouvi-las em Vaso ruim não quebra (João Bosco e Aldir Blanc), em que um simpático casal esperto do subproletariado canta:

Romão   –  Laurinha e eu nos gostamos
                  num caminhão pau-de-arara.
Laurinha  – Juntos chegamos ao Rio
                    juntos quebramos a cara.
           Romão virou camelô.

Romão    –  Laura foi ser governanta.
Laurinha  – Nossa paixão se amarrou.
Romão    – Que nem um nó na garganta.
Laurinha  – Romão bancou o mão-leve.
Romão    – Laurinha até deu massagem.
Laurinha  – Mas as barrigas em greve
Romão  –Transmitiram essa mensagem:
Romão e   – Muita atenção, gente fina
Laurinha   – Que quem se aperta é funil
Quando o pastor late forte
                  O bassê faz piu-piu.

Há, igualmente, o idílico Conto de fada, da mesma dupla:

Nesse baile em que você debutou
eu botei pra fora meu coração,
você riu, me olhou de esguelha,
empolgado, te mordi a orelha.
E daí foi um conto de fadas:
nós casados de um dia pro outro,
você lânguida, misteriosa
e eu vibrante como um potro.
A princesa hoje lava pra fora.
Eu esgrimo a brocha e o pincel
pra dar tudo aos sete herdeiros
no palácio lá no morro do Borel.

O que se tem em mente, o que se idealiza no casamento, é que o amor persista Por toda minha vida (Tom Jobim e Vinicius de Moraes): 
     
Ah, meu bem amado     
quero fazer um juramento
Uma canção
Eu prometo
por toda a minha vida
ser somente tua
e amar-te como nunca
ninguém jamais amou ninguém.
Ah! meu bem-amado
estrela pura aparecida
eu te amo
e te proclamo
o meu amor, o meu amor
maior do que tudo quanto existe
Ah! o meu amor.

Porque o casal sabe que, a partir de certa altura do envolvimento amoroso, ninguém está fazendo favor, como mostra Nem eu (Dorival Caymmi): 

Não fazes favor nenhum
em gostar de alguém
nem eu, nem eu, nem eu.
Quem inventou o amor
Não fui eu, não fui eu
nem ninguém.
O amor acontece na vida
estavas desprevenida
e por acaso eu também.
Mas como o acaso é importante
querida, de nossas vidas
a vida
fez um brinquedo também.

Mesmo porque sempre é possível ouvir, em algum lugar, a mensagem que traz um Velho piano (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro): 
     
Ah! o amor muda tanto
Parece que o encanto
o cotidiano desfaz
feito um verso jogado num canto
de um velho piano
que não toca mais.
E ele estende seu manto
feito um soberano
e vem como um santo
mas parte profano
parece um cigano
não volta jamais.
Ah! o amor causa espanto
o amor é o engano que traz
desengano por trás
e no entanto
todo ser humano
por ele faz plano demais
erra demais.
Ai, é o amor, barco tonto
num vasto oceano
de riso e de pranto
de gozo e de dano
e como é mundano
não para no cais
E quando quer paz
é tarde demais.

O que o homem quer? Nada demais. Não é difícil decifrá-lo. Antes de mais nada, ele quer uma mulher de sonho, colocada na distância, como Dora (Dorival Caymmi):   

Dora, rainha do frevo e do maracatu
Dora, rainha cafuza do maracatu
Te conheci nos recifes dos rios
Cortados de pontes
Dos bairros, das fontes coloniais
Dora — chamei...
Ô Dora... Ô Dora
Eu vim à cidade pra ver meu bem passar
Requebrando pra cá, ora pra lá, meu bem
Os clarins da banda militar
Tocam pra anunciar:
Sua Dora agora vai passar
Venham ver o que é bom
Ô Dora, rainha do frevo e do maracatu
Oi Dora, ninguém requebra
Nem dança melhor do que tu.

Ele anseia por uma mulher excitante, que instila promessas de tudo na dança do amor. Mulher enigmática, desfilando sob sua cobiça. Objeto concentrador de seu desejo disperso e de seu interesse vário. Alguém que ele possa anotar em seu Querido diário (João Bosco e Aldir Blanc): 

Confesso, querido diário,
essa mulher me convulsiona
o ar de mártir no calvário
dentro da bacanal romana.
Garanto, querido diário,
que atrás da leve hipocondria
convive a hóstia de um sacrário
com o fogo da ninfomania
(humm...)

Se a caçada for bem-sucedida, nosso intrépido bípede marchador terá realizado sua proeza, tornando-se herói perante seus próprios olhos, conquistando a suprema presa. Fogosamente, então, ele Roda baiana (Ivan Lins e Vítor Martins): 

Põe a baiana pra rodar
pra rodar, pra rodar, pra rodar
Quando põe a baiana pra rodar
pra rodar
Marinheiro mercante, tá querendo atracar
tá querendo te dar um anel e um turbante
pulseira e colar, hê
pelo teu remelexo, oi
nós nas cadeiras, ah
Quando põe a baiana pra rodar.

Porquanto, na verdade, tudo que ele quer é só Todo amor que houver nessa vida (Frejat e Cazuza):

Eu quero a sorte
De um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Todo amor que houver nessa vida
[...]
E algum trocado pra dar garantia
[...]
E algum veneno antimonotonia
[...]
E algum remédio que dê alegria.

Esse ideal de completude, muitas vezes atingido e usufruído, por insondáveis avatares, sofre vicissitudes. Com frequência, a reciprocidade e a sintonia no amor se desencontraram. A relação se fez então, de viés. Isso acontece na Flor da idade (Chico Buarque):  

Ai o primeiro copo
Ai o primeiro corpo
Ai o primeiro amor
ai a primeira dama
o primeiro drama
o primeiro amor.
Carlos amava Dora que amava Lia que /amava Léa
Que amava Paulo que amava Juca que /amava Dora
Que amava...

Outras vezes, ambos descobrem serem possuidores de uma verdadeira Incompatibilidade de gênios (João Bosco e Aldir Blanc): 

Dotô, jogava o Flamengo, eu queria /escutar
Chegou, mudou de estação, começou a /cantar
Tem mais, um cisco no olho, ela em vez /de assoprar
Sem dó, falou que por ela eu podia cegar.
[...]
Dotô, se eu peço feijão, ela deixa salgar
Calor, mas veste casaco pra me /atazanar
e ontem, sonhando comigo, mandou eu /jogar
no burro
e deu na cabeça a centena e o milhar
Quero me separar!


É quando se verifica que o vínculo termina como um Gol anulado (João Bosco e Aldir Blanc): 

Eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado.

A decepção na vida conjugal começa pela erosão que exerce o cotidiano sobre a relação amorosa. Parece até que o casal se mudou para Saigon (Cláudio Cartier, Paulo Feital e Carlão):  

Quantas palavras, meias palavras
Nosso apartamento, um pedaço de /Saigon
Me disse adeus no espelho com batom
[...]
E quase sempre penso em te deixar
E é só você chegar pra eu esquecer de /mim
Anoiteceu,
olho por aí e vejo como é bom
ter as estrelas na escuridão
Espero você voltar pra Saigon.

Qual a queixa dela? Límpida como um Aquário (Aldir Blanc e Moacir Luz): 
    
Ele me obedece
Ah! se ele soubesse
o mal que ele me faz
Quando ele me acata
Eu que era a gata
Não agarro mais
Eu prefiro o tapa
a marca, a surpresa
O inesperado...
Ao invés do ato, que nos adormece,
um pra cada lado.
Quando ele me invade
Num desejo calmo e frio
Eu que delirava
Com a brutalidade e o cio
Ofereço a face
Adoto o disfarce
de rancor e pena
No quarto, Maria
Na calçada, Madalena.

A dele é a de que está numa Transversal do tempo (João Bosco e Aldir Blanc): 

As coisas que eu sei de mim
são pivetes da cidade:
pedem, insistem e eu
me sinto pouco à vontade.
Fechado dentro de um táxi
numa transversal do tempo,
Acho que o amor é a
ausência de engarrafamento.

Poeta é isso: em um ou poucos versos, condensa um conjunto arguto de verdades e de vivências humanas.

As coisas que eu sei de mim
são pivetes da cidade: 

        São coisas juvenis, pobres, excluídas, incômodas, desenfarpeladas. Pedem, esmolam, insistem, chateiam, e eu, assediado, sinto-me pouco à vontade com a mescolância, com a confusão de meus próprios componentes estilhaçados. Essas são as coisas que mal sei de mim, e, no entanto, é com elas que tenho de me haver. 
        Estou fechado dentro de um táxi, contingenciado pelas torpes circunstâncias de minha conjuntura de vida, numa transversal do tempo, numa sequência em transcurso da tremporalidade do relógio.   
Aldir Blanc ducacete emite esse aforismo, esse analecto atualíssimo: 

Acho que o amor é a
ausência de engarrafamento.

       Em 1975, as grandes cidades brasileiras tinham engarrafamentos de trânsito em horários certos de rush.
       Trinta e sete anos depois, com 3,5 milhões de veículos anuais lançados nas mesmas cidades, inchadas com 2 milhões anuais de motocicletas, a vida transeunta em nossas cidades tornou-se o dia todo engarrafada. Chama-se a isso afluência, prosperidade, emergência das classes baixas. Parabéns! Maravilha! Deteriorou-se, porém, a qualidade do tráfego e da vida.
       O que Aldir ousou dizer é que o amor é transitivo, é fluência, bom encontro, desimpedimento para a troca de bons fluxos afetivos. O amor é desempenado, aéreo, sutil, pura possibilidade em transcurso de haver bons encontros fecundos..
       Maior condensação de quem sou eu, impossível: um bando de pivetes que em meu EU habita, depleta e o perturba.
       Melhor definição para os tempos modernos, impossível: amor exige trânsito livre, fluidez, estuância.
       Por isso, acho, digo, escrevo: Aldir Blanc é o nosso maior poeta que descreve a calhordice de nossa vida urbana, sem babados, sem ilusões, sem romantismos, na bucha e na lata – no real da realidade.
       Aldir é o poeta maior, capaz de retratar a enorme classe média que segura o rojão e amarra as pontas desse desengonçado e destemperado Brasil. E, de repente, se surpreende na Vida noturna (João Bosco e Aldir Blanc): 

Eu tenho num bolso uma carta, Uma estúpida esponja de pó-de-arroz E um retrato, meu e dela, que vale muito mais do que nós dois.[...]Ah, vida noturna,eu sou a borboleta mais vadiana doce flor da tua hipocrisia.

     Nem sei lá como nem por que, verifico que tenho no bolso uma carta dela e uma estúpida esponja de pó-de-arroz (como foi parar aqui?). É um retrato (querido) meu e dela, testemunho dos bons momentos que vivemos, retrato este que vale como representação de vida bem vivida e que hoje vale bem mais que nós dois, que somos dois pilantras, incompetentes que fomos para manter um passado tão feliz. 
     Restou-lhe flanar na hipocrisia da vida noturna de baixa extração, vivendo constantemente desenganado.

Nessa etapa, terríveis possibilidades rondam o laço conjugal. Uma está relacionada com o tempo decorrido, como em Bodas de prata (João Bosco e Aldir Blanc): 

É o tempo, Maria
Te roendo feito traça
Num vestido de noivado.

O terrível, para ela, está espelhado Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto): 

Cresci olhando a vida sem malícia
quando um cabo de polícia
despertou meu coração.
E como eu fui pra ele muito boa
Me soltou na rua à toa
Desprezada como um cão.
E hoje que eu sou mesmo da virada
E que eu não tenho nada nada
E por Deus fui esquecida
Irei cada vez mais me esmolambando
Seguirei sempre cantando
Na batucada da vida.

Já, para ele, o terrível é a ameaça constante de se tornar um Cão sem dono (Sueli Costa e Paulo César   Pinheiro):  

É nas noites que eu passo sem sono entre o copo, a vitrola e a fumaça que ergo a torre do meu abandono e que caio em desgraça. É nas horas em que a noite faz frio e a lembrança ao castigo me arrasta solidão é o carrasco sombrio e a saudade a vergasta. Se eu cantar, a alegria sai falsa Se eu calar, a tristeza começae eu prefiro dançar uma valsa que ouvir uma peça. E eu recuo, eu prossigo, eu me agito eu me omito, eu me envolvo e eu me /abalo eu me irrito, eu odeio, eu hesito, eu reflito e me calo.

O fato é que o casal luta para manter a transação, mesmo tendo de partir para as experiências de A nível de... (João Bosco e Aldir Blanc):  

Vanderley e Odilon são muito unidos
e vão pro Maracanã todo domingo
Criticando o casamento
e o papo mostra
que o casamento anda uma bosta...
[...]
Yolanda aposta que assim a nível de /proposta
o casamento anda uma bosta
e a Adelina não discorda
Estruturou-se um troca-troca
e os quatro hum-hum... oquêi... tá bom... /é...

Empataram capital, montaram restaurante natural, cuja proposta é “cada um come o que gosta”. Fazem artesanato, brigam por ciúmes.

Vanderley e Odilon, Yolanda e Adelina
Cada um faz o que gosta
e o relacionamento... continua a mesma /bosta!

Outras vezes, a inconstância do afeto amoroso é o responsável pela variegabilidade de situações que o casal vivência para além do convencional. O que por vezes acontece é da ordem do insólito; é quando ele chega a pedir-lhe Mil Perdões (Chico Buarque):  

Te perdooPor fazeres mil perguntasQue em vidas que andam juntasNinguém faz.Te perdooPor pedires perdãoPor me amares demais.Te perdooTe perdoo por ligares Pra todos os lugares De onde eu vim. Te perdoo Por ergueres a mão Por bateres em mim Te perdooQuando anseio pelo instante de /sair E rodar exuberante E me perder de ti. Te perdooPor quereres me ver Aprendendo a mentir. Te perdooPor contares minhas horasNas minhas demoras por aí. Te perdooTe perdoo porque choras Quando eu choro de rir Te perdoo por te trair.

Alguns, mais calejados, tornam-se argutos o bastante para dar Exemplo (Lupicínio Rodrigues):  

Dez anos estás ao meu lado
Dez anos vivemos brigando
Mas quando eu chego cansado
Teus braços estão me esperando.
Este é o exemplo que damos
Aos jovens recém-namorados
Que é melhor se brigar juntos
Do que chorar separados.

Se as coisas, porém, desandam inexoravelmente, os parceiros tendem a regredir ao comportamento de apego, fundindo-se patologicamente. Constituem então uma dupla de Siameses (João Bosco e Aldir Blanc):  Ele canta:

Amiga inseparável, rancores siameses /nos unem pelo olhar.
Infelizes para sempre, em comunhão de /males, obrigação de amar.
E amas em mim a cruel indiferença.
Aspiro em ti a maldade e a doença.
Vives grudada em mim, gerando a pedra /em teu ventre de ostra
e eu conservo o fulgor do nosso ódio /estreitando a velha concha...
Amiga inseparável, tu és meu acaso
e por acaso eu sou tua sina, somos sorte /e azar,
tu és minha relíquia, eu sou tua ruína.

Ela revida:

Vivo grudada em ti, gerando a pedra em /meu ventre de ostra.
Conservas o fulgor do nosso ódio /estreitando a velha concha...
amigo inseparável, eu sou teu acaso
e por acaso tu és minha sina, somos /sorte e azar,
eu sou tua relíquia, tu és minha ruína.
Maravilha de apanhado: rancores siameses duplos nos unem com correntes de aço. Amamos pelos nossos ódios, nossos males, gozando de plena e cruel infelicidade. O apego tornado rancor, maldade, doença, sob a égide do amor envinagrado em ódio, fecha-nos como ostra em nossa sina de nos arruinarmos um ao outro.
Acaso? Má sorte? Azar? Nossa ligação se estreita e constrange mais e mais, até nossa ruína. Para isso, vivemos grudados em ódio, em rancor, em decepção. Só nos resta nos vingar reciprocamente. 
Siameses retrata uma apelativa forma de evolução do enlace conjugal. Pedra e ostra grudadas pelo ódio. Indiferença e maldade, transformando-se em sina que determina a impossibilidade de recuperação do amor e impede a separação digna.

O amor, no entanto, só vale, só interessa verdadeiramente como instrumento e recurso que amplia as possibilidades convivenciais dos amantes. Por isso, importa examinar Quando o amor acontece (João Bosco): 

Coração, sem perdão
Diga, fale por mim
Quem roubou toda minha alegria?
O amor quando acontece
A gente esquece logo
Que sofreu um dia
Esquece sim
Quem mandou chegar tão perto
Se era certo outro engano
Coração cigano
Agora eu choro assim.

Nesse caso, o amante pode-se identificar e curtir seu instrumento de deleite, como em Eu e minha guitarra (João Bosco):  

Vou largar no mar, vou morar na areia
Cheio de mama, de mama cheia
Era um quê de égua e aço
Fiquei um dia de montar
No deitar cabelo, na trilha, carreira
É pacatá, pacatá.
Passa um trem de estrela
Pego a jardineira
Vou pra lá de Bagdá...
Sou do engenho, sou menino
Água de rodar moinho
Costas no meu peito
Gostas do meu jeito
Na introdução dirás:
Ai, ai ai ai ai ai ai ai ai
É com banda, com bando
Curu pacocorocô
Siriricatucá no batuque é bebé
Uma guitarra que sua, que geme e mais /quer
Siriricatucá no batuque é bebé
Nas Gerais diz que mamá no boi ocê /não quer...

Com esse elevado grau de desfrute, o casal pode muito bem se estabilizar, aprendendo a usufruir o bom do amor. Com o tempo, pode evoluir para João e Maria (Sivuca e Chico Buarque):  

Agora eu era herói
E meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você
Além das outras três
[...]
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz.

Muitas vezes, eles são, também, Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso):  

Eles se amam de qualquer maneira, à /Vera
Eles se amam é pra vida inteira, à Vera
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá
[...]
Eles se amam é pra vida inteira, à Vera.

Não raras vezes, o homem deseja A Rosa (Chico Buarque), que o descentre e o espicace:  

Arrasa meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A Santa às vezes troca meu nome
E some
E some nas altas da madrugada
Coitada trabalha de plantonista
[...]
A Rosa e o meu projeto de vida
Bandida, cadê minha estrela guia
Vadia me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa.
Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Abusa, me acusa, revista os bolsos da /calça
A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom me deixa, se /queixa
A gueixa, que coisa mais amorosa
A Rosa
A Santa às vezes me chama Alberto
De certo sonhou com alguma novela
[...]
Um dia me trouxe uma roupa justa
Me gusta. Me gusta.
Cismou de dançar o tango
Meu rango sumiu lá da geladeira
Caseira, seu molho é uma maravilha.
Que filha, visita a família em Sampa
Às pampas, às pampas.
Voltou toda descascada.
A fada, acaba com a minha lira
A gira, esgota minha laringe.
Esfinge, devora minha pessoa
À toa, à toa,
Que coisa mais amorosa
A Rosa. A Rosa.

A Rosa é a mulher excitante, que surge, dá e logo escapole e inova. Quantos não se apaixonam por uma mulher assim, tão fatal? 
Ou então, ele quer-se deparar com uma mulher que se lhe apresenta como uma Coisa feita (João Bosco e Aldir Blanc):  

Sou bem mulher de pegar macho pelo /pé
Reencarnação da Princesa do Daomé.
Eu sou marfim, lá das minas do Salomão
Me esparramo em mim, lua cheia sobre /o carvão.
Um mulherão, balangandãs, cerâmica e /sisal,
Língua assim, a conta certa entre a /baunilha e o sal.
Fogão de lenha, garrafa de areia /colorida,
pedra-sabão, peneira e água boa de /moringa.
Sou de arrancar couro,
De farejar ouro, Princesa do Daomé.
[...]
Sou coisa feita, se o malandro se /aconchegar
Vai morrer na esteira, maré sonsa de /Paquetá
sou coisa benta, se provar do meu aluá
bebe o Polo Norte, bem tirado do /samovar.
Neguinho assim, ó! Já escreveu atrás do /caminhão:
“a mulher que não se esquece é lá do /Daomé.”
Faço mandinga, fecho os caminhos com /as cinzas,
deixo biruta, lelé da cuca, zuretão, /ranzinza...
Pra não ficar bobo, melhor fugir logo,
Sou de pegar pelo pé.
Sou avatar, Vodu
Sou de botar fogo,
Princesa do Daomé.

Para que isso ocorra, ele terá de passar a se chamar Nicanor (Chico Buarque). Interessante a estrutura da composição. De início, o poeta faz a pergunta a alguém indeterminado: “Onde andará Nicanor?”. Depois, dirige-se diretamente a Nicanor, o que se percebe pelo emprego da 2ª pessoa do singular – “Onde andarás...?” –, o que mostra certa intimidade com Nicanor. Em seguida, volta a falar dele como de uma terceira pessoa:

Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor
Há tanta moça na espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor.
[...]
Onde andarás Nicanor?
Tinha nó de marinheiro
quando amarrava um amor
Mas há recantos guardados
Nos sete mares rasgados
Sete pecados tão bons
onde amará Nicanor?

      Na fase inicial de Chico Buarque, Nicanor é um monumento pouco valorizado de descrição da masculinidade. Onde, porém, andará o Nicanor, que tinha mãos delicadas para cuidar das flores, mas sabia dar um nó de marinheiro – que é complicado e não se desmancha – para prender sua amada? Repare-se que o autor associa “nó de marinheiro” a “sete mares rasgados e sete pecados”, número cabalístico, considerado perfeito.
      Só assim, então, o homem poderá candidatar-se a fazer uma dupla passagem pelo desejo da mulher, primeiro despido, como se estivesse Sem fantasia (Chico Buarque): 

Mulher:
Vem, meu menino vadio
Vem sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
[...]
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus.
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu.

Homem:
Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus.

A seguir, aceita, de boa vontade, as marcas que ela lhe impinge em Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra). A mulher sabe do seu poder sobre o homem: 

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua /escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava.
Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta,
Morta de cansaço.
Eu quero pesar feito cruz nas tuas /costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem.
Eu quero ser a cicatriz risonha e /corrosiva
Marcada a frio, ferro e fogo
Em carne viva.
Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes,
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes.

Na hipótese de que ambos se identifiquem na intimidade, a relação pode funcionar muito bem. Se um diz para o outro o que significa Você e eu (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes):  

Podem espalhar
Que eu estou cansado de viver
E que é uma pena
Pra quem me conheceu
Eu sou mais você
E... eu.

Assim, mais tranquilo, assegurado de seu valor, ele poderá subir de tom e cantar o Amor (Ivan Lins e Vítor Martins). Trata-se de uma visão mais leve e otimista do sentimento amoroso, reforçado pelo estribrilho:

Vem se mostrar, vem me
/convencer
Traz seus bons olhos pra eu ver
Vem me buscar, vem me seduzir
Que estou pronto pra ir
Vem me encantar, me tirar dos
/confins
Fazer festa pra mim
Vem coração
Acender meus balões, minhas
/paixões.
Vem afastar as assombrações
Arejar meus porões
Vem acalmar os meus vendavais
Meus temores, meus ais
Vem e me faz cada vez mais audaz
Cada vez mais capaz
De acreditar
Que ainda posso tentar continuar...

E o estribilho:

Lutar, lutar, lutar
Pra gente ser feliz
Cantar, cantar, cantar
Como a gente sempre quis.

O máximo de intimidade pode então ser usufruído quando os cônjuges perdem o pudor de confessar Eu te amo! (Tom Jobim e Chico Buarque). Além disso, o homem se entregou de tal forma à relação que até seus olhos ele os confiou à amada. Agora, perdido, cego, sem rumo, ele se pergunta como há de partir, como há de encontrar um caminho que o leve de volta à segurança que tinha antes de encontrá-la. É o que se pressupõe, quando ele diz que queimou seus navios, ou seja, seu meio de condução em um mundo que conhecia e talvez lhe desse segurança:

Ah, se já perdemos a noção da
/hora
Se juntos já jogamos tudo fora
me conta agora como hei de partir.
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar,
/fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei
/meus navios.
Me diz pra onde é que ainda eu
/posso ir
Se nós, nas travessuras das noites
/eternas
Já confundimos tanto as nossas
/pernas
Diz com que pernas eu devo
/seguir.
Se entornaste a nossa sorte pelo
/chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se
/perdeu.
Como, se na desordem do armário
/embutido
meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu.
Como, se nós amamos feito dois
/pagãos
teus seios inda estão nas minhas
/mãos
me explica com que cara eu vou
/sair.
Não, acho que estás só fazendo de
/tonta
te dei meus olhos pra tomares
/conta
Agora conta como hei de partir.

Idílico, assim idealizado, o laço conjugal pode perdurar, então, Por toda a minha vida (Tom Jobim e Vinicius de Moraes):    

Oh, meu bem amado
quero fazer um juramento
Uma canção
Eu prometo
por toda minha vida
ser somente tua
e amar-te como nunca
ninguém jamais amou ninguém
Oh, meu bem amado
estrela pura aparecida
eu te amo
eu te proclamo
meu amor, o meu amor
maior que tudo quanto existe
Oh, meu amor.

Com o passar do tempo, advindo as vantagens da boa convivência e resultando os conteúdos todos da sabedoria, já encanecidos, podem-se expor todas demandas ao sol no Quarador (João Bosco e Aldir Blanc): 

Saindo pro trabalho de manhã
o avô vestia o sol do quarador
tecido em goiabeiras, sabiás
cigarras, vira-latas e um amor.
E o amor ia ao portão pra dar adeus
de pano na cabeça, espanador...
os netos... o quintal... Vila Isabel...
 — Todo o Brasil era sol, quarador.

O atravessamento dos tempos tão tumultuados nos permite, porém, reconhecer que houve alguma mudança. O verso “mudou Vila Isabel ou mudei eu?” remete ao último verso do Soneto de Natal, de Machado de Assis: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” 

Hoje, acordei depois do meio-dia,
chovia, passei mal no elevador,
ouvi na rua as garras do metrô.
O avô morreu
mudou Vila Isabel ou mudei eu?
Brasil...
tá em falta o honesto sol do quarador.
 Tempos do onça e da fera (Quarador).


Parque Marília de Dirceu 
22 de abril de 1992


O Brasil é um país trapaceiro. Ensina-nos um conjunto de modos de boa conduta, preconiza um código escorreito de valores e, logo, vai mudando, inovando, avacalhando, torcendo e aviltando, exibindo outros modos e outros dez valores. É um país que não é para principiantes, que maltrata e malbarata os longevos como eu. Quase ninguém mais dispõe de um “quarador”, ou o usa ou sabe lá sequer o que seja.



Costa Smeralda, 22 de maio de 2012

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