quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O PROCESSO DE EXAUSTÃO DE UMA RELAÇÃO A DOIS, SEGUNDO A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA


Capítulo 3     
O PROCESSO DE EXAUSTÃO DE UMA RELAÇÃO A DOIS, SEGUNDO A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Tudo que se junta mais cedo 
ou mais tarde se separa.
Lei de Vinicius
Que fim levou o amor? 
Plantei um pé de fulô 
deu capim...
Djavan 

Primeira etapa — a vivência de incompletude
O sentimento acicatante de incompletude que constitui o ser humano está magnificamente retratado em Pecado original, de Caetano Veloso:

[...] Sonho de ter uma vida sã...
Todo beijo, todo medo, todo corpo  
 /em movimento
Está cheio de inferno e céu.  4

Há o desejo de ter uma vida mais completa, uma vez que todo corpo vivo está cheio de dualidades contraditórias, imperiosas. Delas brotam a insatisfação afetiva que impulsiona adiante:
O que fazer com o que Deus nos deu?
O que foi que nos aconteceu?

Aí está espelhada a perplexidade e a estranheza com que lidamos com a urgência de nossa hiância, nossa carência. Essa urgência daimônica — como que espírito inferior, corporalizado, propulsor – é o que denominamos eufemisticamente sexualidade.
Assim, o poeta retrata magnificamente a incompletude nos versos:
A gente não sabe nunca certo
onde colocar o desejo.

Eis aí a angustiante questão:
Onde investir o desejo?
Em qual objeto?
De que maneira?
Com quais intenções?

Lançar-se ao risco: eis o que a incompletude nos solicita, com a possibilidade de decepção e perda. Objetiva, porém, atingir outro "estado de ser", envolvendo o encontro do outro com o outro.
A incompletude do ser humano está igualmente descrita nessa belíssima composição de Djavan: Faltando um pedaço: 5 
 O amor é um grande laço 
 Um passo pr'uma armadilha
 Um lobo correndo em círculo
 Pra alimentar a matilha.

Comparo sua chegada
Com a fuga de uma ilha 
Tanto engorda como mata
 Feito desgosto de filha, de filha.

O amor é como um raio 
Galopando em desafio 
Abre fendas, cobre vales 
Revolta as águas dos rios.

 Quem tentar seguir seu rastro
 Se perderá no caminho
 Na pureza de um limão
 Ou na solidão do espinho.

O amor e a agonia
Cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio
O cio vence o cansaço.

                         O coração de quem ama 
                         Fica faltando um pedaço 
          Que nem a lua minguando 
      Que nem o meu nos seus braços.

Segunda etapa — o encontro
Vamos encontrar exemplo em Rita Lee e Roberto de Carvalho em Amor objeto:

Talvez por acaso 
O destino me fez cruzar com você, 
assim tão de repente 
Como uma nova aventura 
Fiquei gamado em você, doçura.

O acaso tem uma função na nossa maneira de lidar com as coisas do amor. Na nossa expectativa romântica, atribuímos ao acaso um vasto campo de operação, sob a forma do encontro fortuito, do click, do acontecimento inesperado. Para isso, temos que estar sempre preparados, com um "sorriso ultrabrite”, pré-requisito fundamental para essa forma de "amor à primeira vista".
O destino aqui é referido como facilitador de uma situação romântica ansiada.
Fiquei gamado em você, doçura.

Representa a imediata identificação projetiva, seguida de depositação no outro, de partes doces, românticas, idílicas. A entrega se faz de maneira total, imediata, sem sondagem, como mostram os versos seguintes:
Faça comigo o que bem entender
Um romance secreto
Um mero namorado
Um simples objeto de amor identificado.

Isto representa a aceitação inicial de qualquer proposta de relação, bastante aberta e despojada de exigências.
Nessa etapa de encontro, sabemos que tudo é novidade, excitante e agradável. Nesse momento, quase não cabem exigências ao objeto amoroso, como mostram os versos finais:
Gosto de você assim, assim
Sem tirar nem pôr!

Na etapa do encontro, reserva-se ao "acaso" um lugar excessivamente privilegiado, já que a experiência vivida mostra sua raridade.
Muito mais que o "acaso", existe um fenômeno psicológico extremamente frequente e importante como definidor do encontro, que é o detalhe crítico.
O mais completo letrista da música popular brasileira, Aldir Blanc, dá-nos um magnífico exemplo disso em Miss Suéter:
Fascínio tenho eu 
por falsas louras
(ai, a negra lingerie),
com sardas,
sobrancelha feita a lápis 
e perfume da Coty.

Eis o que fisga, o que determina a ocorrência do encontro. São um ou dois detalhes críticos na pessoa que acabo de conhecer. Não importa se ela tem ou não atributos físicos, psicológicos ou pessoais que configuram a "imagem ideal" com que sonho e que desejo. A presença desse detalhe crítico, muitas vezes de mau gosto, é que impulsionará a relação na direção de sua continuidade.
De nada adiantam belas morenas, louras sensacionais: o que me tesa é uma loura falsa, cafona, quase vulgar:

Na boca,
dois pivôs tão graciosos 
entre joias naturais 
e olhos quais minúsculos aquários 
de peixinhos tropicais.

É uma figura assim que me enfeitiça, independentemente de quem quer que ela seja. O resto não importa:
Eu conheço uma assim,
uma dessas mulheres
que um homem não esquece.
Ex-atriz de TV,
hoje é escriturária do INPS,
e que, dias atrás,
venceu lá o concurso de Miss Suéter.

Portanto, é o detalhe crítico que vincula o “eu e o outro”, arrebata e determina a continuação do encontro. É um dos mais fortes componentes do apego que junge  o vinculo amoroso.
Para a maioria das pessoas, seus específicos detalhes críticos permanecem desconhecidos. Vale dizer: são inconscientes.
Pele alva, olhos achinesados, coxas grossas, nádegas bem contornadas e salientes, voz ligeiramente áspera são alguns dos detalhes críticos referidos por certo cliente. Não há necessidade de a mulher ser linda ou de ter outra série de atributos "ideais", que ele "intelectualmente" exige.
Se Aldir Blanc é rascante, impiedosamente irônico, Baden Powell e Paulo César Pinheiro são mais discretos.
Em Cai dentro, cantada por Elis Regina, o tema reaparece alusivamente:
Até que eu vou gostar
Se de repente combina da gente se 
/cruzar
Ora veja só pois é, pode apostar
Se você gosta de samba, oi, encosta e vê 
/se dá...

O detalhe crítico pode acontecer no convite             "... encosta e vê se dá...".

Assim, a partir dos detalhes críticos, entendemos aquela velha questão psicológica: "Por que João casou com Maria?" O que ele viu nela (e ela nele)?
A constituição da parelha acontece a partir do encontro, à medida que características físicas, psíquicas e humanas são percebidas consciente e inconscientemente pelo outro. Traços de caráter, tendências pulsionais latentes ou evidentes são rapidamente sentidos, funcionando como agentes de repulsão ou de atração violentos.
O "amor à primeira vista" é a percepção súbita de detalhes críticos.
Da mesma forma, a repulsa imediata do outro se dá pelo mesmo processo: percepção do detalhe crítico repelente.
A dupla João Bosco-Aldir Blanc mais recentemente nos brindou com outro magnífico exemplo de detalhe crítico em Querido diário:
Confesso, querido diário,
essa mulher me convulsiona 
o ar de mártir no calvário
dentro da bacanal romana.

Garanto, querido diário, 
que atrás da leve hipocondria 
convive a hóstia de um sacrário
com o fogo da ninfomania. 
(Hum...).

O desencontro é uma eventualidade muito comum entre os humanos. Vinicius de Moraes já dizia:
 "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro".
Duas canções são monumentais: uma, clássica, cantada por Núbia Lafayette, Quem eu quero não me quer, de Raul Sampaio e Ivo Santos:

Quem eu quero não me quer
Quem me quer mandei embora
E por isso eu já nem sei
O que será de mim agora

Por onde anda quem me quer? 
Quem não me quer onde andará? 
Que será de suas vidas?
Da minha vida o que será?

Flor da idade, de Chico Buarque, é a canção por excelência do deslocamento do afeto amoroso:
Ai, o primeiro copo 
O primeiro corpo. 
O primeiro amor 
Ai a primeira dama 
a primeira chama 
o primeiro amor
Carlos amava Dora, que amava Lia, que  /amava Léa, 
que amava Paulo, que amava Juca, que /amava Dora, 
que amava...
Carlos amava Dora, que amava Rita, que /amava Dito,
que amava Rita, que amava Dito, que /amava Rita, 
Que amava...
Carlos amava Dora, que amava Pedro, /que amava 
tanto,
que amava a filha, que amava Carlos, que /amava Dora,
que amava toda a quadrilha.

O deslocamento do amor é um dos mais comuns mecanismos em que acontece a exaustão da relação amorosa. Em algum momento, um dos parceiros, Dora, no caso, se descobre amando Lia/Rita/Pedro. O objeto excitante, esse furioso charme do desejo, rodopiou, gira-girou, e, de repente, instalou-se num terceiro, quem sabe se não pronto para deslocar para um quarto, quinto personagem? Pulsão beija-flor, pulsão da diversidade, rebelde a capturas instituintes e instituídas.
É próprio da natureza do amor deslocar-se por objetos que momentaneamente lhe servem de suporte. Decorre disso a tristeza do desencontro, tão frequente nas relações amorosas. Isso explica o arreveso desacorçoante do abandono e da traição, tão presente no jogo amoroso.
Terceira etapa — sondagem
Esta é uma etapa que interessa muito às pessoas comuns. Excitado pelo desejo de entrar em relação com o outro, ainda é possível uma retirada discreta e narcisica- mente não dolorosa.
Muitas pessoas permanecem por longo período estacionadas nessa etapa, evidenciando, com isso, incapacidade de resolução e de investimento libidinal no objeto. Pessoas inseguras, tímidas e assustadiças, ao lidar com o objeto excitante (Fairbairn), têm enorme dificuldade de avançar além dessa etapa. Um enorme contingente de homens e mulheres solteiros jamais consegue ultrapassar essa fase do relacionamento humano. Após certo prazo, a sondagem, se não for superada, acarreta o desligamento da relação.
Essa etapa interessou pouco aos compositores. O único exemplo, recente, é a belíssima As vitrines. Naturalmente, de Chico Buarque:

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Da tua mão
Olha pra mim
Não faz assim
Não vai lá não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir
Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão.

Quarta etapa — idílio
A música que mais nos envolve é Gira girou, de Milton Nascimento. Todo o clima de encanto e arrebatamento está posto nesta canção, tecida com enorme ternura e delicadeza:

Desperta minha amada 
Linda como a terra
E vem pelos campos 
Com mil vivas, ao redor.

Já vem
Junto com o luar
E traz no cabelo a flor
Vem para mim encontrar.
Mas seu sorriso triste
Que a lua enfeita
Falar de outras cores
De uma gente sem cantar

Gira
Gira a roda então
Eu vou levar você 
Meu branco e triste amor.

Uma composição recente de Djavan, Pétala, vem a propósito:
Por ser exato 
O amor não cabe em si 
Por ser encantado 
O amor revela-se
Por ser amor 
Invade 
E fim.

Chico Buarque é o grande compositor que trata das coisas todas do amor. Naqueles estudos sobre sua obra, 23 e em sua discografia, não seria difícil citar dezenas de composições passíveis de uma interpretação idílica.
Assim, resolvi tomar apenas uma canção que retrate o idílio. É O meu amor: 
O meu amor
tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca 
Quando me beija a boca 
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo até minh'alma se sentir beijada.

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos 
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos 
Lindos e indecentes 
Depois brinca comigo 
Ri do meu umbigo 
E me crava os dentes. 
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz.

Meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca 
Quando me roça a nuca 
E quase me machuca 
Com a barba malfeita 
E de pousar as coxas 
Entre as minhas coxas 
Quando ele se deita.

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu 
De me fazer rodeios 
De me beijar os seios 
Me beijar o ventre 
(e me deixar em brasa 
desfruta do meu corpo
como se o meu corpo fosse a sua casa).

Eu sou sua menina, viu? 
E ele é o meu rapaz 
Meu corpo é testemunha 
Do bem que ele me faz.

Trata-se de uma canção idílica profundamente erotizada, em que a excitação e o tesão têm livre fluência.
Uma bela composição de Fátima Guedes aborda o idílio dentro de perspectiva ao mesmo tempo romântica e realística. Refiro-me a Condenados:
Ah, meu amor... estamos condenados.
Nós já podemos dizer que somos um.
Nós somos um.

O idílio significa irremediável condenação à fusão amorosa que transmuta dois seres diferentes em um único ser. E essa fusão dos seres só se faz a quente: só mediante o caloroso envolvimento recíproco é que cada um deixa de lado suas defesas e se funde gostosamente numa relação idílica. A compositora, no entanto, prossegue:  
E nessa fase do amor em que se é um 
é que perdemos a metade cada um.

Ela nos adverte de que a fusão tão ansiada, paradoxalmente, tem um preço: alienamos uma parte de nós mesmos.
O idílio, porém, é inovador, curativo, uma vez que ele é um poderoso agente de superação das repressões:

Ah, meu amor... estamos mais safados 
Hoje tiramos mais proveito do prazer. 
E somos um
quando dormimos juntos sonhos /separados.

O paradoxo surge novamente: se somos um quando dormimos juntos, nossos sonhos são separados. E mais, são sonhos:

Que nós não vamos confessar de modo /algum.

Em plena fusão idílica, total e absorvente, os sonhos "separados" nos alertam para a primeira ameaça de separação, uma vez que cada ser é indivisível e incomunicado, como nos mostrou Winnicott:

Ah, meu amor... ah, meu amor... 
quantas pequenas traições. 
Pobres mentiras diplomáticas 
de puras intenções 
(estamos condenados).

O idílio se desenvolve com "pequenas traições, pobres mentiras diplomáticas", às quais os parceiros, por sua vez, estão condenados a cometê-las.
Ah, meu amor... de discretos pecados
formamos esse ser tão uno, divisível.

Então, esse ser tão uno, idílico, é meramente divisível formado de discretos pecados.
Parece incrível
que nós tentemos que ele dure
/eternamente
nessas metades incompletas mas 
/decentes.

Aqui, Fátima Guedes escreve versos inesquecíveis.
Queremos que o idílio dure eternamente, mas ele é irremediavelmente constituído por essas metades incompletas que têm por desculpa unicamente serem "decentes" em suas intenções.
A compositora escreveu uma das mais belas canções idílicas da nossa música, consciente o tempo todo da sua inexorável fugacidade. 
Quinta etapa — encanto
Ainda sob o mesmo tema, é obrigatório lembrar uma belíssima composição de Ivan Lins e Vítor Martins, sugestivamente chamada Mãos de afeto. Ela começa delicadamente:
Preparei minhas mãos de afeto 
Pra esse rapaz encantado 
Pra esse rapaz namorado 
O mais belo capataz de todos os cafezais 
O mais belo vaqueiro de todos os /cerrados 
O mais belo vaqueiro de todos os /cerrados.

O verbo está acionado no pretérito perfeito (preparei), falando-nos do passado que irá desdobrar-se nas ações seguintes, regidas por outro tempo verbal, o pretérito imperfeito (tinha):
Eu tinha um ombro de algodão
Pra ajeitar seu sono
Eu tinha uma água morna
Pra lavar o seu suor
E o meu corpo uma fogueira
Pra esquentar seu frio
E minha barriga livre
Pra gerar seu filho
Pra gerar seu filho
Pra gerar seu filho.
Pela terceira vez, o pretérito perfeito é acionado, agora para desencadear o relato final da tragédia:

Preparei minhas mãos de afeto 
Pra esse rapaz encantado
Pra esse rapaz enamorado
Que partiu pra nunca mais 
Traído nos cafezais.

Ela, o sujeito da música, está duplamente fascinada:
 por esse rapaz encantado, namorado, para o qual se preparou toda acolhedora, feminina e traída, tornou-se encantada de uma forma;
 cristalizada tornou sua relação com ele, com a brutalidade de sua morte, por meio de um "luto patológico".  
Como nos contos de fadas, a ela só restou o congelamento do seu amor, tornando-o encantado: única e radical forma de preservar como sua uma relação tão bela.
O encanto foi descrito pelo grande poeta Caetano Veloso numa composição leve, espumante, Meu bem, meu mal:

Você é meu caminho
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você
Meu bálsamo benigno
Meu signo, meu guru
Porto seguro onde eu vou ter
Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champanhe
Visão do espaço sideral
onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Paixão e carnaval
Meu bem, meu Zen, meu mal.

Também inesquecível pela beleza exultante é Paula e Bebeto, de Milton Nascimento e Caetano Veloso:
Ê vida que amor brincadeira, à Vera
eles amaram de qualquer maneira, à Vera
qualquer maneira de amor vale a pena 
qualquer maneira d'e amor vale amar

Pena que pena que coisa bonita, diga 
qual a palavra que nunca foi dita, diga
qualquer maneira de amor vale o canto 
qualquer maneira me vale cantar 
qualquer maneira de amor vale aquela, 
qualquer maneira de amor valerá.


Sexta etapa — cotidiano
O cotidiano é o campo de decisão em que as etapas prévias do Amor sofrerão um embate profundamente des- gastante. O cotidiano quase não tem apelo poético, pois está adscrito mais de perto à crua realidade da vida. É um tema árido, prosaico e banal. Mesmo assim, porém, os compositores populares têm muito a nos dizer de nosso próprio cotidiano.
A primeira composição surgiu como um tapa na cara: Cotidiano, de Chico Buarque:
Todo dia ela faz tudo sempre igual 
Me sacode às seis horas da manhã 
Me sorri um sorriso pontual 
E me beija com a boca de hortelã.

Ele é acordado da mesma forma, à mesma hora, com o mesmo sorriso e a mesma boca higienizada:
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
 E essas coisas que diz toda mulher 
 Diz que está me esperando pro jantar
 E me beija com a boca de café.

Ouve sempre as mesmas recomendações, tendo as mesmas perspectivas para o jantar, e se despede com um beijo de café.
Todo dia eu só penso em poder parar 
Meio-dia eu só penso em dizer não 
Depois penso na vida pra levar 
E me calo com a boca de feijão.

Ao meio-dia, ele decide dizer “Basta!” e parar com essa vida repetitiva. Há, porém, um argumento poderosamente irrefutável: é preciso levar a vida pra diante, e isso faz calar sua boca com o feijão do almoço.

Seis da tarde como era de se esperar 
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar 
E me beija com a boca de paixão.

Fim do expediente, ela está acesa para beijar com paixão e ele está cansado e sem tesão.
Toda noite ela diz para eu não me afastar 
Meia-noite ela jura eterno amor 
E me aperta pra eu quase sufocar 
E me morde com a boca de pavor.

Ele quer afastar-se, ver os amigos, flanar, recuperar-se um pouco. Ela recomenda que não vá longe.
Mais tarde, fazem amor, um amor quase sufocante. E surge o pavor. Pavor de quê? Pavor que brota do fundo da repetição da vida tornada insatisfatoriamente compulsiva. A estrofe final da música é a pura repetição da primeira, fechando assim, num círculo implacável, a existência.
A estrofe inicial também fecha a música e, das quatro estrofes, somente na do meio há um movimento para sair dessa compulsão:
[...] penso em poder parar 
Meio-dia eu só penso em dizer não.

Apenas "pensa", porém. Pensa na vida para levar e se cala. Dessa forma, o cotidiano é lentamente invadido pelo pavor.

A segunda composição é de Toquinho e Vinicius, Cotidiano nº 2: 

Há dias em que eu não sei o que 
/me passa
Eu abro o meu Neruda e apago
/o sol,
Misturo poesia com cachaça 
E acabo discutindo futebol.

O poema mostra sua mudança de estado de espírito, o qual nem a poesia de Neruda o impede de ficar de mau humor.
A mistura de poesia com cachaça desemboca na discussão banal do futebol. O poeta, no entanto, tem um consolo eficaz:
Mas não tem nada não, 
Tenho o meu violão.

Por sinal, esse é o recurso orfeico utilizado pelo compositor brasileiro para lidar com uma realidade insuportável, como tão bem demonstram Berlinck e Meneses.  
Acordo de manhã, pão sem manteiga 
E muito, muito sangue no jornal 
Ai a criançada toda chega 
E eu chego a achar Herodes natural.

Privação alimentar, notícias ruins, algazarra. E o mesmo consolo:

 Mas não tem nada não 
Tenho o meu violão.

Depois faço a loteca com a 
patroa
Quem sabe o nosso dia vai 
chegar
E rio porque rico ri à toa 
Também não custa nada imaginar.

Pagam o imposto de renda adicional da loteca, o que lhes permite sonhar e rir. E tem o mesmo consolo:

Mas não tem nada não, 
Tenho o meu violão.

Aos sábados, em casa tomo um porre. 
E sonho soluções fenomenais, 
Mas quando o sono vem e a noite morre 
O dia conta história sempre igual.

As soluções fenomenais não passam de sonhos que não mudam em nada o cotidiano: o dia conta uma história sempre igual. Se o cotidiano, porém, é tão denso e pesado, a contrapartida necessária é que haja o porre e o sonho para equilibrar a dureza da vida. E o consolo, sempre:

Mas não tem nada não, 
Tenho o meu violão.

A terceira composição sobre o cotidiano é O casamento dos pequenos burgueses, de Chico Buarque. Nela, Chico traça um retrato vertical do cotidiano de um casal da pequena burguesia, desde o noivado até que a morte os una.

A quarta composição que trata do tema é O primeiro jornal, de Sueli Costa e Abel Silva. Veremos apenas a parte final:
 
               [...]
Estar com você na primeira brasa do /cigarro 
No primeiro jorro da torneira 
Nos primeiros aprontos de um guerreiro 
De manhã
Para que saias com alguma alegria bem /normal 
Que dure pelo menos até você comprar 
E ler o primeiro jornal.

Numa segunda-feira, a graça e a descontração duram até a leitura das sempre amargas notícias de um jornal, que nos remete violentamente para dentro de um cotidiano implacável.
Sétima etapa — constatação de que a relação vai mal

A mais completa música a respeito é a impactante Bodas de prata, de Aldir Blanc:
Você fica deitada 
De olhos arregalados
ou andando no escuro, 
De penhoar... 
Não adiantou nada 
Cortar os cabelos 
E jogar no mar.
Não adiantou nada 
O banho de ervas.
Não adiantou nada 
O nome da outra 
No pano vermelho 
Pro anjo das trevas.

De nada adiantaram os recursos mágicos da macumba.
Ele vai voltar tarde, 
Cheirando a cerveja, 
Se atirar de sapato 
Na cama vazia 
E dormir na hora
Murmurando: Dora... 
Mas você é Maria.

Você fica deitada 
Com medo do escuro 
Ouvindo bater no ouvido
O coração descompassado. 
É o tempo, Maria, 
Te comendo feito traça, 
Num vestido de noivado.

Os recursos mágicos falharam, a espera foi em vão, ele está na noite, na cerveja, na indiferença por ela e sonhando com "Doooraaa..."
O que virá desse escuro? Não se sabe.
O poeta apenas insinua uma explicação, à guisa de consolo: as coisas e os afetos já não são aqueles fixados no retrato do noivado.
Pouco conhecida, a música de Francis Hime e Ruy Guerra se refere à etapa que nos interessa, dentro de uma perspectiva mais submissa. Trata-se de Meu homem:

Meu homem é o meu pão dormido
Inteiro, calçado
Restos jogados na cama
Sonho tonto, agoniado
Meu homem é o meu sala e quarto
Conjugado na tristeza
É o aluguel adiado
É má fama, cama e mesa

Meu homem traz os seus olhos vazios, /vazados 
Traz o seu corpo sumido, surrado 
De janelas e viagem, de mares, mágoas e /bares 
Traz as paisagens sofridas, batidas de /ventos 
Sol rubro, meu homem.

Meu homem é roupa suja 
Que eu olho rindo, demente 
Lavando a limpo o passado 
Passando a ferro o presente

Meu homem nos seus trancos e /barrancos 
Nos gestos fortes e mancos 
Faz coisas do Deus dará, meu homem 
Traz no corpo um cheiro de mulher 
E uma cicatriz mordida no peito.

E pra mim que tanto o amei
E ainda o sei de cor
De ponta a ponta, palmo a palmo
Essa blasfêmia, meu homem
Sempre indeciso
Traz um sorriso amarelo
Um coração de farelo.

Meu homem é o meu entulho 
Meu zelador descuidado
É o meu feijão de gorgulho 
Meu desejo enguiçado 
Meu homem não vale nada, eu sei 
Mas foi tudo o que eu encontrei.

Meu homem retrata o profundo desencanto de alguém que se resignou com uma relação de baixa qualidade humana.

Grito de alerta, de Gonzaguinha, é, a um só tempo, retrato do cotidiano e constatação de que a relação vai mal:             
Primeiro você me alucina 
Me entorta a cabeça 
E me bota na boca 
Um gosto amargo de fel 
Depois vem chorando desculpas 
Assim meio pedindo 
Querendo ganhar um bocado de mel 
Não vê que então eu me rasgo 
Engasgo, engulo, reflito 
E estendo a mão
E assim nossa vida é um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
— Até quando?
São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo, arrasando
Aos poucos com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa que faz
Tanto mal
Não quero a razão pois eu sei
O quanto estou errado 
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar um momento 
em que o copo está cheio
E que já não dá mais pra engolir 
Veja bem, nosso caso 
É uma porta entreaberta 
E eu busquei a palavra mais certa 
Vê se entende o meu grito de alerta 
Veja bem, é o amor agitando o meu 
Coração.

O autor, no entanto, acrescenta uma constatação de fina psicologia nos versos finais da música:
    Há um lado carente dizendo que sim 
    E essa vida da gente gritando que não.

Gonzaguinha consegue articular os dois polos antagônicos do conflito humano, coisa rara na música popular brasileira.
É nessa etapa em que o tema da "traição" costuma, mais frequentemente, inserir-se. A traição deriva do sentimento de ser abandonado pelo outro, que, até então, partilhava um ideal consentâneo, dentro de um clima de cumplicidade recíproca. No momento em que um dos parceiros resolve usar sua liberdade e ir viver alguma coisa fora da relação, o outro se sente "traído". Acusações de "deslealdade" ou "infidelidade" tendem a piorar a situação da dupla. Ninguém sabe o ensinamento de Guimarães Rosa:
 "Quase tudo o que a gente faz ou deixa de fazer, não é, no fim, traição?".
A menos que a díade reconsidere e corrija constantemente sua relação, a "traição", sutil ou escancarada, torna-se inevitável.
A música popular brasileira está cheia de exemplos, uma vez que esse é o tema predileto dos gêneros "fossa" e "samba-canção". Examinar esses gêneros musicais seria um desvio que, no momento, não cabe.
Oitava etapa — tentativa para consertar  
A melhor música a respeito é Sob medida, de Chico Buarque:
Se você crê em Deus 
Erga as mãos para os céus 
E agradeça 
Quando me cobiçou 
Sem querer, acertou 
Na cabeça.
Eu sou sua alma gêmea 
Sou sua fêmea, seu par 
Sua irmã
Seu incesto, seu gesto

Sou perfeita porque 
Igualzinha a você 
Eu não presto 
Eu não presto.

Aí estão os detalhes críticos que confirmam o acerto da escolha recíproca, como também estão descritas as características das pulsões parciais passíveis de serem satisfeitas na relação:
Sou sua irmã, seu incesto, sou você mesmo, sua fêmea e, como você, não presto.
Que mais se pode querer? Tem mais é que erguer as mãos para os céus e agradecer a seu deus. 
Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome, sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus.

O que mais se pode esperar? Por isso, vem a enfática recomendação:

       Meu amigo 
Se ajeite comigo 
E dê graças a Deus.

A música termina pontificando:
Você tem o amor 
Que merece.

A música exemplar, cantada por Dalva de Oliveira, retrata a "constatação de que a relação vai mal". A mulher faz uma tentativa ingênua para "tentar consertar" a situação. A canção é belíssima, além de clássica. Trata-se de Que será? 

Que será?
Da minha vida sem o teu amor
Da minha boca sem os beijos teus
Da minha alma sem o teu calor.

Que será
Da luz difusa do abajur lilás
Se nunca mais vier iluminar
Outras noites iguais.

Procurar uma nova ilusão 
Não sei
Outro amor não quero ter 
Além daquele que sonhei.

Meu amor
Ninguém seria mais feliz que eu 
Se tu voltasses a gostar de mim 
Se o teu caminho se juntasse ao meu.

Eu errei
Mas se me ouvires
Me darás razão
Foi o ciúme que se debruçou
Sobre o meu coração.


Nona etapa — ressentimento (ou vingança)
Atrevida, de Ivan Lins e Vítor Martins, é um belo exemplo de declaração de ressentimento:
Estou mais atrevida 
Mordaz e ferina 
Estou cheia de vida 
Sagaz e ladina 
Já não sou mais a mesma 
Respiro outros ares
Navego outros mares 
São tantos olhares 
Convites, sorrisos 
Eu gosto, eu preciso, pois é... 
Que ficou impossível não ver 
Mudei de você 
Por isso me esqueça... 
Virei a cabeça.

Até aqui, a parceira comunica sua mudança sintetizada no verso:
 "Mudei de você."
Na sequência, está espelhado todo o ressentimento por desejos não satisfeitos pelo outro, o que justifica a mensagem principal da música: "Mudei de você."
Nas noites maldormidas 
Rezava seu nome 
Olhava na janela 
Chorava seu nome 
Mexia em sua roupa 
Gemia seu nome 
Morria de sede 
Subia as paredes 
Me amava sozinha 
Você não vinha, pois é...

A mudança acontece com a percepção da frustração repetida. Ficou impossível não ver. A consequência é inevitável: "Mudei de você." A partir disso:

Já não me inicia 
Já não me arrepia.

Ela está mais segura de si, cheia de audácia e de confiança, sabe o quanto vale, o que quer e como conseguir.
Estou mais atrevida 
Tô cheia de vida 
Você não me provoca 
Nem quando me toca. 
Agora eu tenho é fome 
De homem que seja feliz.

Não me venha com suas lamúrias, suas feridas e tristezas, não dá mais. Quero é homem feliz. E sei que posso tê-lo.
Outra música que se refere ao ressentimento é de autoria de Edu Lobo e Joyce — Tempo presente:
Tanto tempo te amei
Mil motivos te dei pra me usar
Tanto te desculpei
Tanto te acostumei a brincar.

 Quantos anos perdi
 Envelheci de amor
 E você não mudou 
Nunca parou pra pensar.

Sempre eu tinha razão
Sempre eu era quem não pode errar
E quem sempre está certo
É o primeiro por certo a cansar.

Mas agora as águas vão rolar
E você vai chamar
Vai pedir, procurar
Quando não me encontrar por aqui.



Décima etapa — tédio
A música paradigma dessa etapa é Latin lover,  de João Bosco e Aldir Blanc.
Nós dissemos
que o começo é sempre,
sempre inesquecível,
e, no entanto, meu amor, que coisa /incrível, 
esqueci nosso começo inesquecível. 
Mas me lembro
de uma noite — sua mãe tinha saído, 
me falaste de um sinal adquirido, 
numa queda de patins em Paquetá 
— Mostra... doeu? ... ainda dói? ... 
A voz mais rouca 
e os beijos,
Cometas percorrendo o céu da boca... 
As lembranças acompanham até o fim 
um latin lover, 
que hoje morre
sem revólver, sem ciúmes, sem remédio, 
de tédio.

Este pode ser o percurso exato da exaustão de uma relação a dois: a morte natural, de tédio. Ambos abandonaram a relação e seguem cada um para o seu (desen)canto. "Foi-se o que era doce" e pronto.
Décima primeira etapa — derrota pessoal

Um grande número de parceiros, no entanto, prossegue na relação além do tédio, vivenciando a perda de forma lutuosa. É a etapa da derrota pessoal, da qual falam os compositores brasileiros em algumas de suas mais belas músicas.
O primeiro deles é o clássico Ary Barroso com Risque.

Risque
Meu nome do seu caderno 
Pois não suporto o inferno 
Do nosso amor fracassado.

Deixe
Que eu siga novos caminhos 
Em busca de outros carinhos 
Matemos nosso passado...

Trocando em miúdos, de Francis Hime e Chico Buarque, retrata magistralmente a sensação de derrota pessoal, que acontece no amor esgotado. Vejamos:
Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim 
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?

É inquietante. O que é Bonfim? Metáfora do amor terminado? Cemitério? Para nós, de Belo Horizonte, Bonfim sempre é cemitério! Ou qualquer coisa lá da Bahia, que não atuou favoravelmente a ele? O que quer que seja está proposta uma partilha: disco do Pixinguinha para mim, medida do Bonfim para você, metade da geladeira para você, um penico para mim etc.  


O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar 
As sobras de tudo que chamam lar 
As sombras de tudo que fomos nós 
As marcas de amor nos nossos lençóis 
As nossas melhores lembranças. 
Aquela esperança de tudo se ajeitar 
Pode esquecer
Aquela aliança você pode empenhar 
ou derreter.  

Derrota em toda a linha. Partilha e cessão do patrimônio que, um dia, pelo amor, foi comum aos dois e agora se desfaz.
No fundo, resta um pouco de amor-próprio: alguma coisa tem de ser preservada, orgulhosamente:
Mas devo dizer que não vou lhe dar 
O enorme prazer de me ver chorar 
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago 
Meu peito tão dilacerado.

A dor é profunda, e o estrago egoico, tremendo: para suportar tamanha dor é bom deter o processo de perda em algum ponto:
[...] não vou lhe dar o enorme prazer de /me ver chorar.

"Não vou lhe cobrar pelo seu estrago" é pura bravata. Nessa altura das relações, ele não pode cobrar nada porque ela simplesmente não reconhece dívida. Não há de quem cobrar.
Aliás, aceite uma ajuda do seu futuro /amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou 
E nunca leu.

O disco do Pixinguinha, o livro do Neruda são os restos rescaldados que sobraram da relação que se desfaz.
Representam a condensação daquilo precioso, investido libidinalmente, que o distingue dela, valorizando-o aos seus próprios olhos. Disso que sobrou, ele terá de "começar de novo".
Nos versos finais da canção, a derrota pessoal está maravilhosamente cantada:
Eu bato o portão sem fazer alarde 
Eu levo a carteira de identidade 
Uma saideira, muita saudade 
E a leve impressão de que já vou tarde...

E já vai mesmo.
A derrota pessoal está espelhada em duas monumentais músicas de Chico Buarque: Pedaço de mim e Olhos nos olhos. A primeira é uma canção lancinante, relatando a tentativa infrutífera de negar o luto já iniciado:
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
 Leva os teus sinais
 Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais 
Oh, pedaço de mim 
Oh, metade arrancada de mim 
       Leva o vulto teu
      Que a saudade é o revés de um parto
  A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor.
Adeus.

Olhos nos olhos é talvez a mais bela canção de amor de toda a música popular brasileira. Condensa tudo que o amor pode ter de dadivoso, de receptivo, de decepcionante, de doloroso, de superador de resistências e de acionador de mecanismos de reparação. Sobretudo, Olhos nos olhos mostra o quanto o amor quer mais amar.
A canção começa com o abandono sofrido e configura a situação abrupta e enlouquecedora de derrota pessoal:
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem 
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci 
Mas depois, como era de costume, /obedeci.

Diante de tamanha perda, se não endoidou, restou-lhe o mecanismo da submissão ao desejo do objeto amado: "obedeci-lhe, fui ser feliz e passei bem". Isso merece duas observações: o costume de ser obediente ao desejo do outro costuma ser um sedutor artifício para conquistá-lo num primeiro momento. A fragilidade e a dependência são poderosas armas relacionais. Em médio e longo prazo, no entanto, constitui-se num poderoso fator de estimulação do desinteresse do objeto amado sempre atendido. Olhos nos olhos é uma mulher submissa, falando da sua submissão. Estranha que o costume que a faz conviver com o maior amor de sua vida perdesse toda a significação para ele.
A segunda observação é a de que, diante do fracasso em mantê-lo, e que se presume ser decorrente de sua costumeira obediência, a ela não restou outro recurso senão continuar a obedecer-lhe e ir "ser feliz e passar bem". Mesmo separados, ela não faz mais que manter-se vinculada a ele, submissamente. É assim que ela o amou, é assim que ela preservará seu amor por ele.
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.

Ela o convida, colocando-se ao dispor dele e afirma estar refeita. Sim, está. Não está, todavia. O "pode crer" é um aposto de quem precisa reafirmar uma verdade que traz em seu bojo uma verdade inversa. Ela conseguiu  refazer-se, em grande parte, por mandado  dele e para agradar-lhe. Não é ela mesma, portanto, que se refez por si e para si. Refez-se por ele e para ele. Ele ainda a possui, entranhada: I've got you under my skin.
Ela, porém, desafia:
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz 
Ao sentir que sem você eu passo bem /demais.

Ela gostaria de se vingar dele, mas tem poucas chances. No máximo, poderá incomodá-lo, fazendo-o sentir-se menos importante para ela. Nisso consistirá sua vingança, e é toda a possibilidade que ela tem de vir a recuperá-lo como objeto de amor, desejoso de amá-la.
Ela, então, joga todas as suas fichas nesse lance, carregando a mão. É tudo ou nada:
E que venho até remoçando 
Me pego cantando 
Sem mais nem por quê.

Ele, no entanto, não parece comover-se e nada responde. Ela lança mão das últimas cartas, tentando espicaçá-lo em seus brios de macho:
E quantas águas rolaram 
Quantos homens me amaram 
Bem mais e melhor que você.

Ela passou bem, teve outros que foram melhores amantes e melhores homens. Estava ali, porém, com eles, comandada por ele, por seu amor. Foram momentos passageiros. Os outros foram melhores de cama, eram melhor companhia, gostaram mais dela, mas não adianta. Ela quer é ele. Seu único orgulho é disso não abrir mão. Ela continua fiel ao seu amor.
Mais uma vez ele não responde. Ela forçou a barra (verso anterior) e não obteve resposta. Então ela ameniza e se torna mulher:
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha /sim.

Agora, ela coloca no condicional a possibilidade de relação entre eles. Percebe que a relação só vai funcionar quando e se ele precisar dela, e jamais quando ela precisar dele. Ela se dispõe, receptiva, a convidá-lo.
Permanece submissa, mas é uma submissão diferente daquela do início. Sabe, então, que pode esperá-lo e confia que ele um dia vai precisar dela. Ela não vai morrer, nem enlouquecer.
Por ser tão amante, e como amante tão fiel, e por estar passando por tanta dor, ela adquiriu o justo direito de lançar um desafio. Vai ressarcir-se parcialmente das perdas narcísicas que sofreu, ao se deixar entranhar por ele:
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Ela atravessou o inferno da submissão e está do lado de lá. Hoje sabe que é mais forte que ele, uma vez que desenvolveu mais recursos pessoais.
Se, por um lado, sua proposição de "felicidade" provém dele, o fato é que aprendeu a "ser feliz", e isso, de maneira alguma, é pouca coisa, embora não seja autenticamente dela.
No fundo, o tempo todo, tudo que faz é tentar recuperar o amor dele. Isso faz suspeitar que, no desafio, há uma parcela de blefe. Não nos esqueçamos, porém: guerra é guerra.
Olhos nos olhos é privilegiadamente bela porque reflete a derrota pessoal na relação amorosa, permanecendo um dos parceiros imerso totalmente nela.
Já o mesmo não acontece em Atrás da porta, em que a separação é por demais brutal, e a saída da mulher foi reclamar baixinho:
Dei pra maldizer o nosso lar 
Pra sujar teu nome, te humilhar 
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Só pra mostrar que ainda sou tua.

Em Atrás da porta, a parceira abandonada está igualmente possuída, entranhada pelo amante e só consegue mostrar-lhe isso odiando-o, sujando seu nome, vingando-se a qualquer preço, sempre muito caro.
Em Olhos nos olhos, ela, entranhada e possuída por ele, fez um rico percurso próprio que valorizou sua vida. Em Atrás da porta, a subitaneidade da separação não permitiu mais que a simples e pura inversão dos sentimentos. O amor virou ódio, mas a relação de posse está selada como antes. "Te adorando pelo avesso" é, de todos, o verso mais monumental de Chico Buarque.
Vale a pena examinar a mecânica e os resultados da derrota pessoal descrita em Bastidores.
Bastidores mostra que o fracasso da relação acarretou enorme autocompaixão, matéria-prima essencial para a dor de cotovelo ou música de fossa. Não é à toa. A autocompaixão amortece a dor da derrota pessoal, acena com "excitantes", "calmantes", "um instante de ilusão" e impede a entrada do pobre sofredor no luto. O tom é histérico: "me pintei, me pintei, me pintei, me pintei."
A vivência de Bastidores se esgota na autocomiseração e poderá subir de tom e virar Ronda, de Vanzolini. Se o sujeito for argentino, certamente terminará num "tango" clássico.
Em Bastidores, o poeta descreve uma saída, má, por sinal, à la samba-canção, isto é, em luto patológico prolongado.
O samba-canção, o bolero e o tango são gêneros de autopiedade, decorrentes da incapacidade de aceitar e superar as perdas amorosas dentro de um contexto honesto de luto. Nesses três generos, o  que prevalece são os acordes merencórios  de uma relação de apego longamente extendida, não superada.
Décima segunda etapa — desistência da relação e convicção do seu término 

Ilustra esse momento a canção de Lins e Martins, Saindo de mim (dois gumes):
Você foi saindo de mim 
Com palavras tão leves 
De uma forma tão branda 
De quem partiu alegre.

Você foi saindo de mim 
Com sorriso impune 
Como se toda faca 
Não tivesse dois gumes.

Você foi saindo de mim 
Devagar e pra sempre 
De uma forma sincera 
Definitivamente.

Você foi saindo de mim
Por todos os meus poros 
E ainda está saindo 
Nas vezes em que choro 
Nas vezes em que choro.

O amante encarnado em mim vai saindo devagar, por todos os poros. Para isso, é preciso tempo e choro, tempo e sofrimento, tempo e desapego.
A mesma dupla nos presenteou com outra composição, sequência do processo descrito em Saindo de mim. Trata-se de Bilhete:
Quebrei o teu prato 
Tranquei o meu quarto 
Bebi teu licor.

Arrumei a sala 
Já fiz tua mala 
Pus no corredor.

O amante relata as iniciativas dolorosas, sem dúvida tomadas por ele. Rompeu com a refeição comum na copa, separou e isolou o seu quarto da presença dela, bebeu o que dela restava de bom; arrumou a sala, providenciou o empacotamento das coisas dela e já as colocou no lugar do transitório: o corredor. Todas essas iniciativas são tomadas em sucessão lógica, movida por uma decisão interior, que só aumenta e que permite, portanto, o processo de separação interna do outro. É o que se vê nos versos seguintes:
Eu limpei minha vida 
Te tirei do meu corpo 
Te tirei das entranhas 
Fiz um tipo de aborto.

Todo o processo interno de separação está aí descrito. Eu fiz um tipo de aborto, “te tirei das entranhas, te tirei do meu corpo, limpei minha vida”. Só pude fazer isso quando tive decisão para desencadear o processo de ruptura, quando quebrei o teu prato e as outras coisas todas. Nesse momento, ele pode cantar:

E por fim nosso caso 
Acabou, está morto.

Ele o matou ativamente. Com isso, pode-se reaprender uma lição.
Se o amor não acabar dissipado no tédio, uma vez constatado que está no fim, cabe a um dos dois parceiros ou a ambos a missão de matá-lo. Assim, na bucha, à seca, sem dó nem autopiedade. Foi isso que o sujeito de Bilhete teve a coragem de fazer e vai fazer mais ainda. Porque o que se vê comumente são as pessoas carregarem seus amores (ou suas relações) moribundas com todo um equipamento de CTI, mantendo uma relação desafetivizada, com mil tubos, desculpas e injeções. E acusações.
Voltemos, porém, ao nosso exemplar sujeito. Ele continua tomando atitudes muito necessárias:
Jogue a cópia da chave 
Por debaixo da porta 
Para não ter motivo 
De pensar numa volta.

Dessa forma, ele corta de vez a possibilidade de uma eventual reconciliação, desfazendo-se de mais um liame com ela. Conclui:
Fique junto dos teus 
Boa sorte... Adeus.

Mostra-lhe a sua (dela) saída. É cortês, mas impessoal: "Boa sorte." E conclusivo: "Adeus." Curto e grosso.
Bilhete representa o encerramento definitivo de um processo de exaustão de uma relação a dois, pelo menos no que tange à tomada de atitudes de um dos parceiros.

Não devo ir adiante sem tomar essa composição como exemplo de uma descoberta tão estonteantemente óbvia: para se desfazer uma relação humana, é preciso desmontar, um a um, laboriosamente, cada vínculo, cada elo, cada laço. Isso, em sequência correta e, de preferência, rapidamente. Senão, acontece a eternização da angústia e da dor.
A imagem que vem insistentemente é a de um des- montador de bomba de alta complexidade: tem de seccionar os fios corretos, desapertar parafusos, desativar mecanismos, remover armadilhas, uma a uma, com tempo marcado. Nem pode dar vacilo. Não é, portanto, tarefa de que pessoas inseguras de si mesmas ou, como é mais frequente, chafurdadas em autocomiseração possam sair-se bem.
Quando acontece a saída do outro de mim? Quando eu puder cantar alegremente a música de Xixa Mota, Eu sou mais eu:
Me esquece 
Me deixa
Agora, já está na hora
De eu pensar um pouco em mim.
Desculpe o mau jeito
Mas eu não posso mais acreditar
Na ilusão de ser feliz
Quando eu não sou mais

  Devolve ao meu peito 
  Um velho coração 
  Que sempre foi só seu 
  Agora entre nós dois 
  Eu sou mais eu.

Eu sou mais eu é a canção da ruptura definitiva e jubilosa. do apego. Nos seus versos finais, ela revela toda a retirada do investimento libidinal e narcísico no outro, de volta para si própria, num processo de recuperação completa da integridade do Eu.
É uma canção alegre, de quem viveu e se recuperou, sem mágoas e sem resíduos, como em Olhos nos olhos.
Eu sou mais eu é a expressão de quem percorreu os labirintos do processo de exaustão de uma relação a dois e dela saiu crescido e enriquecido.
Após recuperar a inteireza de si mesmo, por desinvestimento no antigo objeto amoroso, reenchendo-se de si mesmo, a próxima etapa é a reabertura à possibilidade de vir a viver um novo amor. A melhor composição que retrata esse momento é o hino nacional da boemia brasileira (Obrigado, Pedro Paulo Cava!), Pressentimento, de Élton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho:
Ai, ardido peito
Quem irá entender o teu segredo? 
Quem irá pousar em teu destino? 
E depois morrer de teu amor?

Ai, mas quem virá? 
Me pergunto a toda hora 
E a resposta é o silêncio 
Que atravessa a madrugada.

Vem meu novo amor 
Vou deixar a casa aberta 
Já escuto os teus passos 
Procurando o meu abrigo.

Vem, que o sol raiou 
Os jardins estão florindo
Tudo faz pressentimento 
Este é o tempo ansiado 
De se ter felicidade.

Gostaria de terminar essas observações prestando, com o poeta, uma reverência à relação afetiva paradigmatizada, em nosso caso, pelo amor.
Para esse fecho, escolhi a música de Sueli Costa e Aldir Blanc, que melhor descreve as vicissitudes da relação amorosa que, mesmo fracassada, merece nossa reverência. É o que se vê em Altos e baixos:

Foi, quem sabe, 
Esse disco
Esse risco
De sombra em teus cílios
Foi ou não meu poema no chão
Ou talvez nossos filhos
As sandálias de saltos tão altos
O relógio
Batendo
O sol posto
O relógio
As sandálias
E eu batendo
Em teu rosto
E a queda
Dos saltos tão altos
Sobre nossos filhos
Com um raio de sangue no chão
Do risco em teus cílios
Foram discos demais
Desculpas demais
Já vão tarde essas tardes
E mais tuas aulas
Meus táxis
Uísque, dietil, dienpax,
Ah, mais há que se louvar
Entre altos e baixos
O amor quando traz
Tanta vida
Que até pra morrer leva tempo/demais.
                  

                                            Hotel 4 Rodas         
                                                        Olinda – 8.9.83
Costa Smeralda -  5.8.12

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