quarta-feira, 14 de agosto de 2013

RELEMBRANDO O RÁDIO

Capitulo 15
RELEMBRANDO O RÁDIO.



Dedicado a tia Egle, tia Célia, Salete e as  minhas irmãs Vilma e Mariangela

Final da década de quarenta, o rádio oferecia o mundo para um menino solerte, ávido para absorver as coisas todas que lhe eram apresentadas. Minha mãe Hercília, cantava Dalva de Oliveira, Araci de Almeida, Orlando Silva e Carmem Miranda. Não deixe que males pequeninos / venham trastornar os nossos destinos...
Aos pés da santa cruz, você se ajoelhou / em nome de Jesus / um grande amor você jurou. Jurou mais não cumpriu, mentiu e me enganou...
Quando eu morrer / quero uma fita amarela / gravada com o nome dela...
Você sabe o que é ter um amor meu senhor, / ter loucura por uma mulher e depois encontrar esse amor meu senhor /  nos braços de um tipo qualquer...
       Ouvia-se Francisco Canaro e sua orquestra típica portenha. Carlos Gardel, morto há anos, cantava, como afirmam os argentinos até hoje, cada dia melhor. Orlando Silva, o cantor das multidões, Silvio Caldas mais melodioso e Francisco Alves, o rei da voz. Cantava-se Orestes Barbosa:
Tu pisava os astros distraída / sem saber que a ventura desta vida / é a cabrocha, o luar e o violão. 
        Ouvia-se os primeiros ‘reclames’: Pílulas de Lussen, Phimatosan, Melhoral, Sabonete Eucalol, Gillette, Toddy, Creme C´Ponds, aveia Quaker, Ovomaltine e já, Coca-Cola e Guarapan. Aparecia Emulsão de Scott, Biotônico Fontoura, Leite de Colônia, Polvilho antisséptico Granado, Pomada Minâncora e o perfume Madeira do Oriente.
Ela é linda. Aaah! Mas é noiva. Oooh! Usa Ponds. Aaah! 
E ainda: A criança chorou / dorme, dorme, menina /  tudo calmo ficou / mamãe tem Aurissedina...
      
     Todos os reclames, isto é, a propaganda, veio depois do primeiro anuncio de que se tem notícia no Brasil. 
Olhe gentil cavalheiro / o passageiro que tem ao teu lado / esteve mal / a morte / salvou-o Rhum Creosotado.
     Todo mundo recitava: Regulador Xavier, o remédio de confiança da mulher: número um, excesso; número dois, escassez. Pastilhas Valda e Vick Vaporub eram patrocinadores de programas da Nacional.
      No início da década dos cinquenta foi o apogeu da influência do rádio sobre o menino em formação. Meu avô José Baggio, possuía um rádio Saratoga Zenith. Assentado na sala, na penumbra, ouvido colado na Hora do Brasil, toda noite, de 19 às 20 hs. A família em torno, silenciosos e atentos, numa nova comunhão entronizada pelo rádio. 
      Para mim era meio chato: “Aviso aos navegantes Atlântico Sul Brasil / Barra de Itajaí / Farol apagado temporariamente. E eu, sei lá o que era aquilo?... Depois tinha O Direito de nascer, radionovela que levou um dúzia de anos para acabar. Mamãe Dolores, Albertinho Limonta, interpretado por Paulo Gracindo. Eu não gostava. Apreciava mais Jerônimo, o herói do sertão. Adorava a PRK30 da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, com o impagável Balança mas não cai. O Primo pobre, com sua galinha Chimbica, papel tão bem desempenhado por Brandão Filho e o Primo rico, na pele de Paulo Gracindo. E a sequência de  piadas deliciosas introduziam uma pitada de humor e de malícia na psique do garoto que perdia rapidamente sua inocência. Lembro-me bem  dos conselhos de Júlio Losada, o primeiro a propor uma incipiente psicoterapia radiofônica às mulheres esperançosas brasileiras. A mulher do meu maior amigo/ me manda bilhete todo dia/ desde que me viu/ ficou apaixonada/ me aconselha seu Júlio Lousada... 
      De 1936 a 1960, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro reinou absoluta. Da poderosa emissora da Rádio Nacional havia o programa nas tardes de sábado A felicidade bate a sua porta, patrocinada pela União Fabril Exportadora. O ponto alto era o Programa César de Alencar, com suas macacas de auditório, nas tardes de sábado. Emilinha Borba, a maior. As irmãs Linda e Dircinha Batista. Cauby Peixoto e Ângela Maria, Marlene, Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves e suas pastoras. Carmélia Alves, Marion,  Almirante, Lana Bittencourt, Elizeth Cardoso, Zezé Gonçalves, Ellen de Lima, 
Primeiro, década de 30, Noel Rosa, Pixinguinha, Vicente Celestino, Mário Reis, Ismael Silva. Na de quarenta, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Silvio Caldas, Orlando Silva e já chegando Nelson Gonçalves. Araci de Almeida e Carmem Miranda, entre eles. Na de cinquenta, Jamelão, Jorge Goulart, João Dias, Francisco Carlos, Caymmi, Nora Ney, Ivon Cury, Jorge Veiga, Isaurinha Garcia, Elizeth Cardoso e Ângela Maria. 
      Ouvia-se e decorava-se com prazer as músicas de carnaval, lançadas às dezenas.
Chiquita Bacana lá da Martinica / se veste com uma casca de banana nanica. 
      Aquele mundo de zinco que é Mangueira. 
Leva meu samba, meu companheiro / este recado para o meu amor primeiro / vai dizer para ela  a razão dos meus ais/ não, não posso mais...  
      Brincava-se o carnaval, como plena festa popular. Meu pai Aldo fazia o corso na Avenida Afonso Pena, com confete, serpentina, máscara e lança perfume a vontade. O mundo era simples, belo, risonho e franco. 
      As ondas curtas e médias da Rádio Inconfidência traziam Primeiras Esportivas com Jairo Anatólio Lima. O Galo era um Galão: tricampeão 53-54-55. Durante décadas, ouvia-se A hora do fazendeiro. A rádio Mineira trazia Bentinho do Sertão com suas toadas sertanejas e o seu bom humor caipira. 
Eu tinha uma mula preta com sete palmos de altura...
      A rádio Guarani apresentava pontualmente A hora do Angelus cantada por Augusto Calheiros: Cai a tarde, tristonha, serena. E me dava um travo de melancolia que durava dez minutos. 
      Meu avô não perdia o Repórter Esso , o testemunho ocular da história, com Herón Domingues.
      Só Esso dá a seu carro o máximo. Com música da Cavalaria Rusticana. O mundo começava a se tornar uma aldeia global. A gente iludia-se, como até hoje, de que ao ouvir as noticias ruins, provenientes de todo o globo, estaríamos contribuindo para melhorar o mundo. Quanta ingenuidade... 
      Nos domingos de manhã, havia a Parada de Sucessos onde se ouvia os grandes cantores brasileiros e internacionais, cantando sambas, boleros, música francesa, standards americanos, uma ou outra rumba e tome samba-canção. A dor-de-cotovelo imperava:

Ninguém me ama, ninguém me quer...
De cigarro em cigarro, eu vi a fumaça no ar se perder.
Bar estranho sindicato, de sócios da mesma dor.
Bar que é o refúgio barato dos fracassados no amor.
      
E dá-lhe Nora Ney, Tito Madi, Nelson Gonçalves e tome Lupiscínio e Vanzolini, Adelino Moreira, Jair Amorim, Evaldo Gouveia. Então veio a onda Anísio Silva, com seus samba-canções e boleros que tocavam fundo a alma plangente dos enamorados. 
      Eu nasci com o rádio e com ele me criei. Havia um mundo glamoroso além da Rua Três Pontas, no Carlos Prates. Eu, fedelho, me candidatei a um dia vir a conhecê-lo.
      Cauby era o máximo. A sapoti Ângela, a rainha do rádio. É claro, todo ano elegia-se uma. Assim tivemos dezenas de reis e rainhas do rádio. Quase todos, muito merecidamente. Lembro-me da comoção nacional com a morte de Francisco Alves, o rei da voz, esmagado em seu Buick, na Via Dutra, em 1952. Depois, em agosto de 1954, a imolação de Getúlio Vargas comoveu o Brasil. A surpresa da morte de Carmem Miranda, em Los Angeles , em agosto de 1955, aos 46 anos.
       O programa de calouros do grande Ary Barroso e seu fanatismo pelo Flamengo, marcaram época no rádio brasileiro. Havia os sambistas caixa de fósforos: Wilson Batista, Geraldo Pereira e o querido Ciro Monteiro. E os negros pobres e talentosos, custando a sobreviver com seus sambas: Ismael Silva, Cartola, Nelson Cavaquinho. Foi nessa época que conheci, remotamente, alguns dos grandes compositores: Custódio Mesquita, Mário Lago, Bororó, Alcir Pires Vermelho, Antônio Maria, João de Barro, Fernando Lobo, Haroldo Barbosa, Benedito Lacerda, Marino Pinto, Antônio Nássara, Luiz Peixoto, Jacob do Bandolim e Lamartini Babo, Joubert de Carvalho, Lucio Cardim, Nazareno de Brito, Jayme Florence, Roberto Roberti, Lourival Faissal, David Nasser, entre outros.
       Tentava-se “pegar” rádios estrangeiras, a BBC de Londres e outras. Pegava e sumia, voltava de novo...
       Lembro-me que eu torcia sempre para a Rádio Inconfidência. Recordo com saudade que meu pai me levou, de bonde, do Carlos Prates a Feira de Amostras, onde nas manhãs de domingo Elias Salomé e o maestro Maklarewiski comandaram, durante anos, o programa Gurilândia. 
      Eu não perdia Radio Seleções Guanabara, diariamente apresentado pelo charmoso Levi Freire, recém falecido.
      Pontificava na Rádio Mineira Rômulo Paes, elegante, boêmio e compositor popular muito querido. Na Rádio Guarani, Aldair Pinto fazia furor nas tardes com o seu Roteiro das Duas. Lembro-me das cantoras mineiras: Irmãs Vieira, Neide e Nanci e Maria Condé.
      Duas bobagens: Rádio Jornal do Recife, falando para o Brasil e para o muundoo... Recife era a terceira cidade mais importante do Brasil, então.
      Rádio Belgrano de Buenos Aires:
      El niño borro? Papel Drumond. Macios como flocos de algodón... 
      Liberty ovais, Hollywood, Urodonal, Brilhantina, Gumex, Gessy, Lever, Cafiaspirina, foram outras propagandas veiculadas pelo rádio.
      Foi no rádio que ouvi pela primeira vez o Concerto de Varsóvia, Rachmaminoff, Mozart, Chopin , Beethoven, Villa-Lobos.
      De todas, o baião Delicado, de Waldir Azevedo foi e é minha música preferida, me enternece e me faz chorar. Depois dela, só O cavaleiro e os moinhos e Bye bye Brasil me fazem chorar de emoção, um choro bom, gostoso.
      Meus avós, José e Dalma, filhos de italianos, não apreciavam ópera e, ao que me lembro, ouviam pouco música italiana.
      O rádio me proporcionou um universo de cultura musical que me deu uma percepção integrada dos grandes artistas brasileiros.
      A televisão chegou à casa dos meus avós em 1957 mas o rádio já havia introjetado em mim o bom gosto musical que me acompanha.
      Em 1958-1960 surgiram a bossa-nova, os festivais, a televisão. Foi quando então o rádio virou só o radinho de pilha para levar ao Mineirão. 
      O que ouço hoje são as ressonâncias do patrimônio vivencial que obtive nas décadas de quarenta e cinquenta. Época na qual o rádio envolvia o público brasileiro que saia da roça com afeto e respeito. Oferecia o melhor que se compunha e se cantava no Brasil.
      Assim forjava a identidade urbana do povo brasileiro. Possibilitou a primeira onda de cultura massiva. Havia tempo para absorver as canções. Possibilitava o apuro do gosto e a seleção dos preferidos. Naquele tempo, guardava-se a escalação do time, o nome dos ministros e o nome e o repertório dos cantores do rádio. O Rio de Janeiro, Capital Federal, era o palco iluminado que irradiava música, carnaval, alegria e cultura para todo o Brasil. Foi, de fato, uma época brilhante em uma cidade maravilhosa. As ondas de rádio portavam para todos nós os brilhos e os reflexos desse deslumbre. O rádio permite ainda hoje, oferecer companhia no dia a dia aos solitários. O que oferece aos radio-ouvintes permite uma agradável alimentação que compassa a solidão e dá conteúdo ordenado à mente do homem solitário e anônimo. Com algo e com alguém, distantes, ele compartilha a vida que vem lá do rádio. 
      Vivi e cresci numa época em que os Aliados haviam vencido a Segunda Guerra Mundial e os EUA, surgiam ricos e portentosos, como bons moços, trazendo o cinema, a música, os aparelhos eletrodomésticos, os automóveis, os produtos alimentícios industrializados e os hábitos que compunham o estilo norte-americano de vida. Isso tudo fez muito bem a um Brasil roceiro que acabava de acordar e levantar de seu longo sono de país essencialmente agrícola. O Brasil estava em acelerado processo de aggiornamento.   
      Se, após tantas décadas, não fizemos um Brasil melhor, a responsabilidade é nossa. O rádio deu seu recado.     


Referências

BAGGIO, M. A. Música Popular Brasileira: os  
conscertos  da vida. Campinas: Workshopsy, 1996.
LENHARO, Alcir. Cantores do Rádio. Campinas: Unicamp, 1995.

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